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Música em Movimento
Por Redação Waves em 17/04/16
A banda BaianaSystem lança segundo disco com novo estilo em meio a selva de pedras.

 

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BaianaSystem, Duas Cidades. Foto: BaianaSystem.

 

De dentro das frestas da selva de concreto e aço, brotam novas raízes, de uma espécie soteropolitana ainda não estudada.

 

Duas cidades (em uma).
 
Quatro cabeças pensantes a serviço da arte dançante.
Arte sonora, visual e reflexiva.
Arte mutante, com disposição de arriscar, pra ver aonde vai dar.
O peso da bass culture com a mandinga e o tempero baiano;
Imagens enigmáticas e instigantes;
A palavra das ruas para as ruas;
A guitarra baiana recolocada na linha de frente, de uma forma completamente diferente.
 
Bem... Você pode gostar ou não, mas uma coisa é certa:
não existe nada parecido com o BaianaSystem.

E essa certeza fica muito mais latente a partir da audição do segundo disco desses sujeitos, Duas Cidades:

Da música jamaicana vem a sabedoria das divisões e dos graves de SekoBass (também responsável pela maioria das programações das batidas originais, ou seja: o “homem-cozinha” do grupo);
 
Das antigas festas de largo, da tradição fotográfica e da arquitetura moderna, vêm os frames, máscaras e traços de Filipe Cartaxo;

Da mistura sem precedentes entre o toaster jamaicano e o samba do recôncavo baiano, vem o estilo inovador de Russo Passapusso;

Das tradições da guitarra baiana (inventada pelos mestres Dodô & Osmar) em conjunto com uma forte influência africana, vem Roberto Barreto (o idealizador do BS), com suas linhas e riffs que dão a identidade final e definitiva ao Baiana.

Quatro cabeças pensantes a serviço da arte dançante.
 
Do alto do seu Navio Pirata, estes destemidos tripulantes, ao mesmo tempo em que traduzem os sons das ruas e vielas em seu próprio estilo, propõem uma nova ordem: libertária, capaz de provocar uma catarse coletiva por onde quer que passem.

Ijexá, Afoxé, Dancehall, Pagodão, Sambareggae, Cumbia, Chula, Dub, Cabula, Kuduro, Samba Duro, Cantiga de Roda, Eletrônica...
 
África
Brasil
Caribe

A riqueza de ritmos e referências que brotam, não como “pesquisa”, e sim como vivência.
Sentimento e movimento.

O disco abre alas com ”Jah Jah Revolta parte 2”, faixa que explicita uma das características mais marcantes do BS: o uso de suas músicas quase como riddins  “made in Jamaica”,  ou seja: dentro de uma mesma  base, ou das mesmas melodias,  a música segue em um processo de recriação contínua. 

Música em movimento.
 
Uma após outra, as faixas de Duas Cidades se apresentam como hits em potencial, sendo que muitas delas já estão estabelecidas neste patamar, como as balançantes “Playsom” (aquela que entrou no game da FIFA em 2015), “Lucro (Descomprimindo)”, e “Barravenida parte 2” (que deve ser a primeira  música deste disco a ganhar um videoclipe).

Especulação imobiliária, sobrevivência na concrete jungle, divisões sociais, diversões, comportamentos, forças da natureza, crenças, lutas, fé ...está tudo aqui, presente, nas rimas ágeis e inesperadas de Russo Passapusso.

Duas Cidades é isso:
 
O som das festas populares de um futuro próximo.
 
O trio elétrico como um soundsystem ambulante.

O carnaval como uma experiência social.

A cidade (partida) como ponto de ação e observação do ser humano
 
Cada cabeça é um mundo. E o amor é, com certeza, a energia que está na
essência desta experiência.

Com dendê e com afeto.
 
E, dentro desse aspecto, as participações especiais vem, todas, para reforçar essa idéia:

Abrindo o disco, de forma épica em “Jah Jah Revolta Parte 2”, Marcelo Galter (teclados) e Rowney Scott (saxofone);
 
No coro de várias faixas (e na brincadeira/risadaria calorosa antes do início de “Panela “), surge a força das Ganhadeiras de Itapuã ;
 
Na guitarra, seja em duetos com Roberto Barreto ou redefinindo as melodias da faixa-título do disco, Junix, um dos grandes da cena underground soteropolitana;

De Pernambuco, trazendo a sua rabeca para um dueto original e extremamente instigante com a guitarra baiana (em “Cigano”), temos Siba;
 
No naipe de metais fumegante: João Teoria no trompete, Mathias Herman Traut, no trombone e Marcelus Leone no saxofone.
 
No viola machete, representando a região do Recôncavo, Cássio Nobre somando de forma belíssima em “Dia da Caça”.
 
O trabalho de percussão deste álbum é um capítulo a parte, e traz o peso que se espera nesta área, em um disco de música feito na Bahia:

Ícaro  Sá (diretamente da Orquestra Rumpillez), Japa System (egresso da Timbalada) e Márcio Vitor (vocalista e fundador do Psirico) tem participação fundamental no resultado final do disco. Batuques, toques e batidas certeiras (ora sutis, ora pesadíssimas), com o poder e a energia de todos os santos desta cidade.

Bom para mim, bom para você.
 
Dentre outras características próprias, o BS tem a de trazer produtores para jogarem junto e influir diretamente no trabalho sonoro do grupo.

Já foi assim com Chico Corrêa (no disco anterior), é assim com Mahal Pita e João Meirelles nas apresentações ao vivo, e em Duas Cidades, essa função ficou a cargo de Daniel Ganjaman.
 
Ganja, paulista reconhecido pelo apuro técnico e bom gosto nas timbragens e mixagens dos trabalhos que já comandou (Sabotage, Criolo e Instituto, entre outros), ficou responsável também pelos teclados, programações e alguns dos arranjos  deste álbum.

O resultado é um som que bate perfeitamente, com tudo no seu devido lugar.
 
Mas, e você?
Depois de todo esse texto, acredito que uma pergunta deve estar rondando a sua mente:

O que seria o BaianaSystem?
Um grupo? Uma banda? Um soundsystem?
Um coletivo? Tudo ao mesmo tempo agora?

Bem... Mais do que a certeza dessa definição, uma coisa eu posso afirmar:
o BS é um autêntico fenômeno cultural que se expande a cada apresentação, a cada carnaval, do zero aos 20 mil, em crescimento (e movimento) exponencial.

Salvador, Nova York, São Paulo, Tokyo, Rio de Janeiro, Xangai...

Aonde isso vai parar? Aonde tudo isso vai dar? Isso, só o tempo dirá.
Esperemos as cenas dos próximos capítulos desta saga extremamente singular, dentro da música moderna (baiana, brasileira e mundial).

Asé,

"BNegron".
  

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