NOTÍCIAS WAVESCHECK MENU
Jaime Viúdes
O mestre rabugento e o anão aprendiz
Por Jaime Viúdes em 14/09/16
Jaime Viúdes fala sobre seu último encontro com o mestre rabugento, Wady Mansur, e o anão aprendiz, Leandro Machado.
Wady Mansur, o Rabugento. Foto: Fernando "Fedoca" Lima.
Wady Mansur, o Rabugento. Foto: Fernando "Fedoca" Lima.

Hóspede frequente aqui em casa, o Rabugento (Wady Mansur) é um dos mais folclóricos personagens do surfe brasileiro. Não à toa, é figura essencial nos ótimos documentários do canal Off, graças à sua franqueza e ao seu estilo de não ter papas na língua.

 

O que dá respaldo são o carisma e a enorme bagagem como surfista e competidor ferrenho. Um cara que viveu intensamente tudo de bom e de ruim que o surfe pode oferecer e, até hoje, aos 61 anos, surfa a todo vapor. Gosta de variar o equipamento, usa pranchinhas fish, monoquilha, pranchão e por aí vai.

 

Na sua última vinda ao Guarujá, demos uma esticada até a Riviera de São Lourenço. Bicudos de tanto café expresso, falávamos pelos cotovelos sobre pranchas e a eterna questão do surfe clássico x progressivo. No volante, seu fiel aprendiz, o Anão (Leandro Machado), ouvia a tudo atentamente. O swell acabara de encostar, com o boletim apontando até 6 pés de onda. Levei minha THM Designs, o Anão escalou a Villaça do Rabugento, pois só tinha trazido uma clássica, e por isso tive que emprestar uma Neco Carbone zerada para o velho. Todas altamente progressivas, round pin e com configuração de quilhas 2+1.

 

Tirando as armas do rack, encontramos a mais polida geração do surfe clássico tupiniquim saindo da água. Falo do Alexandre Wolthers, Roger Barros, Caio Teixeira, Marcelo Carbone e a promissora Evelyn Neves. Um contraste interessante. A molecada usando logs tradicionais single fins e os mais velhos com pranchas de ataque. Escolhemos cair no canto do píer. A Riviera não é uma onda power, mas, com swell, lá perto de onde começa os prédios tem um caldeirão que movimenta bastante água e oferece uma pressão suficiente para gerar rampas de alta velocidade.

 

Na volta pro Guarujá e ainda tagarelando sobre pranchas depois de mais alguns cafés, inspirados pelo casual encontro com a molecada, eu passava para o Anão a importância de manter um quiver diferenciado para um surfista que ainda não tem tanta técnica: Você tem que estar preparado para tudo. Só vai te ajudar. Hoje, se você estivesse com sua 9’6 clássica estaria lascado”.

 
De vez em quando o Anão se manifestava: Pô, Jaime, mas o Caio só surfa de log na Macumba quando tá grande. E lá balança pra caramba, você sabe! Tudo bem que não é buraco...”.

O Rabugento: “Mas o Caio é o Caio, porra! Surfa pra cacete! A verdade é que se o mar de hoje estivesse mais buraco e mexido, se fosse num campeonato aqui no Brasil, ninguém tinha arrumado nada”.

 

Eu rebati: “Os moleques usam o log nesse mar porque são muito técnicos. Além de ser a essência deles. Sem falar que são experimentalistas, assim como os californianos. Eles fogem do estereótipo do brasileiro, que é bitolado num único tipo de prancha, geralmente a mais fácil de surfar. Se bem que esse quadro já vem mudando e eles são reflexo puro dessa mudança. Eles querem sentir essa dificuldade, porque isso apura a técnica deles."

 

Rabugento: “Além de ser o mar que escolhe o equipamento, tem que se ligar no seu estado de espírito. Tem dia que acordo mais acelerado que já sou, como vou surfar clássico? Dias assim eu quero meter a borda na água, e não fazer curvinha usando o fundo da prancha. Quero cortar a onda que nem uma navalha e socar a cara dela”.

 

Com 15 anos de idade eu já era competidor de pranchinha e passei a surfar também de longboard. Era um tocão de madeira tradicional, do saudoso Flávio La Barre. Foi isso que me contagiou na modalidade, a inércia da navegação. Logo passei a competir também de pranchão e fui naturalmente seguindo a tendência. As pranchas ficaram cada vez mais arrojadas e depois que me “profissionalizei” como longboarder, encanei na progressividade, que vivia seu auge mundo afora, afinal, dependia de resultados. Mesmo assim, acho que dei mole focando no mesmo tipo de prancha.

 

Continuei: “Hoje sei o quanto uma prancha e uma linha de surfe diferente podem agregar na hora de surfar com outras pranchas, inclusive quando você usar a que mais gosta. Limitei minha diversão e meu crescimento técnico. Depois que desencanei de competição foquei nas pranchas clássicas. Foi um grande laboratório, e continua sendo, mas nunca abandonei as outras. Você passa a explorar a onda de outras formas, expande seu ângulo de visão, seja qual for a condição do mar. Na marolinha gorda, o log é inquestionável; na bomba, vou de progressiva; no meio termo, uso uma híbrida. Mas também é legal tentar pranchas pequenas."

 

Rabugento: “Tem que usar tudo. Variar melhora estilo, postura, controle e até esse caô de footwork, inclusive com pranchas de alta performance. Porque se você gosta de surfar de longboard, uma hora você vai precisar delas. O Jaime correu atrás do clássico porque pegou o bonde andando e não teve tempo de experimentar. Ele é competitivo, queria levantar troféu, corria contra Picuruta, Amaro, Phil, Marcelo Freitas e um monte de gringo fodão. Depois que largou o osso da competição foi experimentar. Mas também vou falar a real, passou da conta! É que ele é meio bipolar... Em Santos ele tinha que ter competido de progressivo, foi de monoquilha e se arrombou. Anão, esquece essa porra de ficar só no clássico. Vai se limitar pra quê?”

 

Respondi que queria seguir o critério. 

Rabugento: “Critério é o cacete!”

 

Anão: “Pô, Rabugento, mas você também só usa longboard progressivo!”

 

Eu: “Mas, quando ele pegou meu barcão na bateria de demonstração dos legends no campeonato da Macumba, ele deu jeito fácil."

 

Rabujento riu orgulhoso: “Fala tu! Foi demais, hein, bipolar? Tomei um susto na primeira onda. Aquela prancha não é fácil de surfar, hein?”

 

O papo se estendeu até em frente de casa aqui no Tombo. Enquanto explicava ao Anão que o Rabugento passou por todo o processo de evolução das pranchas desde garoto, que tinha todas essas informações impregnadas no DNA, o Rabugento interrompeu: Chega, Nelson Ned, vamos vender esse barco que você chama de prancha e fazer uma progressiva com o Villaça. Nunca vi você surfar do jeito que surfou hoje. Tô orgulhoso. Acompanhou o Lagarto no caldeirão, pegou umas bombas, quase quebrou minha prancha. Foi muita aventura, não foi? E quer saber? To de saco cheio dessa merda de surfe clássico. A molecada querendo surfar que nem velho e eu, que sou velho, estou surfando que nem moleque!! Vamos dormir que amanhã o Bostrô promete."

 

Anão: “Beleza, mas o colchão presidencial hoje é meu!”

 

Rabugento: “Pega essa porra, eu durmo até de pé”

 

Anão: “Mas vem cá, nós não vamos comer mais nada, não?”

 

Rabugento: “Jaime, e aquele café da safra do John Wolthers?”

 

Anão: “A gente não ia dormir?”

 

Rabugento: “Porra, o André da Montanha tá me ligando pra gente ir em Santos. Bora?”

 

Fui pro meu quarto e tranquei a porta.

Veja também
Neco Carbone

Neco Carbone

Prestígio no Boardroom

Luis Juquinha

Luis Juquinha

História no pranchão

Rodrigo Sphaier

Rodrigo Sphaier

Longboarder de alma

De olho no WLT

De olho no WLT

Gabriel Nascimento investe no Hawaii

Danilo Mulinha

Danilo Mulinha

Hawaii inesquecível

Campeão guarujaense

Campeão guarujaense

Confira galeria de fotos

Campeão guarujaense

Campeão guarujaense

Luisinho abre o bico

Festival na Baixada

Festival na Baixada

Galera encara remada em Santos (SP)

Austrália de long

Austrália de long

Roger Barros faz a cabeça

Sem patrocínio

Sem patrocínio

Abolição troca uma idéia

Testemunha ocular

Testemunha ocular

A trajetória de Marcelo Lima

Pequena notável

Pequena notável

Mainá Thompson a um passo do tri

Roubada superada

Roubada superada

Bahia rumo ao Tahiti

Gilmar Teixeira, evolução a passos largos

Talento precoce