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Slab hunters
A trilogia das lajes caiçaras
Por Raphael Almeida em 23/08/17
Fotógrafo registra passagem de swell pelas bancadas de Angra dos Reis e da Ilha Mãe, em Niterói.
Angra dos Reis (RJ). Foto: Raphael Almeida / DOSURF.
Angra dos Reis (RJ). Foto: Raphael Almeida / DOSURF.

Quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A caminho do escritório depois de uma caída nas marolas antes da chegada do mega swell previsto, recebo uma mensagem do meu amigo Ilan Blank, big rider com muita experiência em ondas grandes, perguntando se eu estava disponível para fotografar numa trip de surfe.

Vamos sair hoje à noite e voltar no domingo, lajes secretas. Tow...

Não precisou falar muito para eu perceber a magnitude do que ele estava propondo. Como fotógrafo de surfe iniciante e apaixonado por ondas grandes, talvez eu estivesse diante da grande oportunidade registrar ondas raríssimas dentro de casa, além de não querer deixar meu amigo na mão sem os preciosos registros. Entretanto, eu nunca havia fotografado de um jet-ski. Que lente devo usar? Ponho a câmera na caixa estanque? Sem a caixa, qual o risco de molhar o equipamento e acabar no prejuízo? Alto, o risco era alto.

Pegaríamos a estrada do Rio para Angra no fim do dia, seria o tempo de eu pensar na logística para fotografar e organizar os equipamentos. Então, nos 20 minutos que faltavam para eu chegar ao escritório, organizei minhas ideias e chegando lá conversei com a minha chefe sobre tirar aqueles dois dias de folga. Confirmado, tô dentro!

Agora eu precisava de uma câmera reserva e de uma bolsa impermeável para vedar o equipamento em caso de emergência. A câmera eu consegui emprestada e a bolsa eu teria que improvisar. Então aproveitei a dica do meu amigo e referência como fotógrafo de surfe, Leonardo Caetano, de embalar a câmera em plástico filme. A bolsa impermeável seria uma sacola plástica embalando a câmera dentro da mochila. Ótimo!

Tudo pronto, acabei levando todo o meu equipamento fotográfico, e como combinado, no fim do dia pegamos a estrada para Angra dos Reis. Em três caminhonetes e com três jet-skis, a equipe era formada pelos surfistas Ilan Blank, Renato Phebo, Beaultiful Hear, Marcelão, Wagner Beta e seu filho Pedro Beta. Todos experientes surfistas de tow in em busca das raríssimas ondas de Angra dos Reis. E eu, engenheiro surfista (de ondas normais) que fotografa o surfe nas horas vagas.
    
Sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Chegamos em Angra por volta de meia-noite e o horário da maré nos dava tempo para acordar sem pressa e aproveitar o café da manhã da pousada. Mas, com a ansiedade que eu estava, às quatro da manhã eu já estava olhando para o teto.

Colocamos os jets a água e seguimos navegando para o pico. Com a minha câmera empacotada dentro da mochila, varamos a arrebentação da praia, onde já quebravam ondas com mais de meio metro. A praia, que quase nunca tem onda, estava lotada de surfistas - além dos surfistas da região, também havia um pessoal do Rio de Janeiro.

Com quinze minutos de navegação, chegamos ao pico. Uma direita colossal quebrando numa pedra lisa, na ponta de uma ilha, com o lip da onda arremessando na direção das pedras, impossível de ser surfada na remada.

Quando chegamos, o mar estava começando a acertar e já tinha um pessoal no pico. Antes mesmo de eu sacar minha câmera, desce o Victor Gioranelli numa bomba sem precedentes! It’s on!

A segunda cena foi um outro fotógrafo cair dentro d’água com câmera e tudo! Confesso que me perguntei o que estava fazendo ali, mas a resposta veio logo na minha cabeça: você veio fazer a foto da sua vida! Logo em seguida vem o Ilan em uma dinamite maior ainda. "Está feito o quadro para pendurar na sua parede", pensei depois de disparar o obturador, já com a câmera pronta para o combate.

Na água, os fotógrafos e videomakers eram os melhores, as minhas referências estavam ali na minha frente trabalhando, fazendo aquelas imagens históricas. Definitivamente hoje acertamos o pico!

Todos surfaram bastante, até que um forte vento começou a atrapalhar a formação das ondas. Voltamos para a pousada e descansamos para o dia seguinte, onde o planejamento era despertar mais cedo para chegar no pico quando o dia clareasse. Segundo a previsão, o swell manteria a intensidade mas mudaria de direção.

Sábado, 12 de agosto de 2017

Na manhã do segundo dia, saímos bem cedo, antes mesmo do café da manhã da pousada. Na laje, o cenário muito diferente do dia anterior. As ondas estavam menores e o mar estava balançado, com a formação das ondas bastante prejudicada. Não haviam condições para o surfe.

Estavam todos de cabeça feita, todos haviam surfado boas ondas e eu com certeza já havia feito a foto da vida! Mas, mesmo assim, fomos verificar uma outra laje onde raramente quebra uma esquerda muito tubular.

Mais dez minutos navegando e chegamos na segunda laje. Uma esquerda cavernosa, uma onda muito buraco, muito rápida, rodando um tubo muito pesado e com muitas pedras ao redor. Deduzi imediatamente que não teria surfe naquele dia, até porque no fim da onda tinha um degrau raso onde a pedra ficava exposta.

Engano meu. Surfistas na água, fotógrafos e cinegrafistas a postos e começou mais um show de insanidade! Mas dessa vez estávamos contra a luz em um dia nublado, totalmente diferente do dia anterior, ensolarado e de águas claras. Nessa sexta-feira o clima estava tenso, com poucos surfistas saindo dos tubos. O surfe de backside estava fatal, alguns até decidiram não se arriscar.

Até que a formação da onda começou a piorar e o risco já não valia a pena, então navegamos de volta para a rampa e tiramos os jets da água. O mar já havia baixado bastante e não havia muita expectativa de boas ondas para o domingo, então, depois de dois dias de altas ondas e altas imagens, em um clima de cabeça feita e missão cumprida, arrumamos os equipamentos e pegamos a estrada de volta para o Rio. Afinal, no dia seguinte era Dia dos Pais e todos queriam passar o dia com a família.

Cheguei em casa umas 4 da tarde, com toda aquela tralha pra arrumar e muito cansado. A primeira coisa que fiz foi um backup das imagens. Acabara de realizar a trip da vida dentro de casa, a ficha ainda não havia caído. Ainda naquela tarde, recebo as mensagens do Ilan dizendo pra eu me preparar para o próximo dia. O sonho ainda não havia terminado.

Domingo, 13 de agosto de 2017
    
Na manhã de domingo, Dia dos Pais, despertei às 3 da manhã com muita dificuldade, sentindo o corpo todo moído, como há muito tempo não sentia. Não imaginava o quão desgastante era permanecer na garupa do jet na mesma posição por tantas horas seguidas. Dirigi até a casa do Ylan, aqui do lado no Recreio mesmo, e de lá fomos no carro dele ao encontro de Phebo. Da marina na Barra da Tijuca, partimos para Niterói rebocando o jet e fomos fazer um check na Ilha Mãe.

Dessa vez foi mais complicado colocar os jet-skis na água, pois a saída para o mar era na boca de um rio muito raso e um pouco mais afastado da praia. A onda era bem mais próxima da costa, uma direita pesada quebrando na laje, mas abrindo bem. Devia ter uns 6 pés de onda, um pouco mais de 2 metros nas séries. Foi o menor e mais fácil dos três dias de surfe. E o dia estava impecável, ensolarado, água quente, um clima de alegria e satisfação dentro d’água.

Todos surfaram soltos, com sorriso no rosto. Fotografar aquelas ondas com o visual do Rio de Janeiro ao fundo não tem preço, foi para fechar a trip com chave de ouro. Voltamos para a praia e batemos em retirada, afinal ainda tinha o almoço do Dia dos Pais, mas acredito que o atraso foi justificado.

Já em casa, analisando as imagens, depois de limpar o equipamento, lavar as roupas de borracha, a ficha começou a cair. Eu havia testemunhado a audácia de surfistas que, por conta própria, vão até as ondas e surfam. Simplesmente surfam, em uma escala maior, onde a dependência mútua exige confiança e comprometimento máximo, onde não há espaço para hesitações. Esses são os Slab Hunters.

Agradecimentos:

- Beaultiful Hear, pela pilotagem excepcional, sem a qual essas imagens não seriam possíveis;
- Leo Caetano, pelas aulas de fotografia;
- Ilan Blank, pela oportunidade.

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