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Adalvo Argolo
Palavras do presidente
Por Redação Waves em 23/09/16
Em entrevista ao Waves, Adalvo Argolo (presidente da CBS) revela as dificuldades à frente da entidade e a expectativa pela filiação ao Comitê Olímpico Brasileiro.
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Adalvo Argolo (último da esq.para a dir.), em recente visita ao ministro do Esporte Leonardo Picciani. Foto: Arquivo pessoal.

 

A equipe brasileira participa de uma grande batalha no ISA World Junior, Mundial para atletas de até 18 anos promovido pela International Surfing Association (ISA).

Pouco antes do embarque da delegação rumo às ilhas Açores, em Portugal, conversamos com Adalvo Argolo, presidente da Confederação Brasileira de Surf (CBS).

Nesta entrevista, o dirigente fala sobre as principais dificuldades enfrentadas pela entidade, o motivo da ausência do Brasil no ISA Games da Costa Rica e o processo de filiação da CBS ao Comitê Olímpico Brasileiro.

Para quem não entende, como você poderia explicar qual o papel da CBS no surfe?


O papel da Confederação é difundir o surfe em todo o País, assim como o das federações é difundir o surfe em seus respectivos estados. Desde que assumi a Confederação, a gente vem batendo nessa tecla, que é o que o estatuto determina, então levamos o surfe ao Pará, regularizamos a Federação de Sergipe, que vinha parada há um tempo, sem documentos, e agora está tudo ok, filiamos o Maranhão e também a ABRASPO, associação que cuida do surfe na pororoca. Levamos também um evento do Brasileiro Amador pela primeira vez à Paraíba. A gente promovendo campeonatos em vários estados do Brasil e buscando introduzir o surfe em todas as categorias. Por outro lado, também temos o papel de promover o Circuito Brasileiro Amador, que temos feito durante todos estes anos, com no mínimo três etapas. E desde que entrei, em 2010, a gente vem fazendo o Brasileiro Master, que tem sido o maior sucesso. Era uma categoria que estava desacreditada no Brasil e agora vai ter até etapa com R$ 20 mil em prêmios. Então, estamos com as categorias de base, que vão formar a história do Brasil no futuro, e a Master, composta por quem fez a história no passado. Acredito que, com a inclusão do surfe nas Olimpíadas, a CBS faça parcerias também com os gestores das entidades do surfe profissional e aí comece a promover eventos dessa categoria. Em 2017, a gente pode ter novidades nessa área.

Quais as principais dificuldades que você tem enfrentado para promover o circuito de base?

Eu adquiri muita experiência durante esse tempo. Estou em meu segundo mandato como presidente e fui vice nos dois mandatos anteriores. Desde que me convidaram para ser vice-presidente, entrei com a visão de que eu tinha de arrumar uma fórmula ali para fazer aquilo ficar legal, diferente do que era, e também proporcionar dinheiro para a CBS. Quando eu assumi o Circuito Brasileiro, as federações faziam as etapas, a CBS recebia um determinado valor por cada evento e acontecia de a federação não pagar por dificuldade, pois muitas vezes o evento não dava lucro. Aí, propus comprar o circuito e criei um formato junto com Bukão (diretor de prova) e Jordão (diretor técnico). Eram quatro etapas no Brasil, sendo duas no Nordeste, uma no Sul e outra no Sudeste. Antes disso, eram oito eventos ao ano e eu achava um absurdo os atletas largarem a escola tantas vezes. Era uma irresponsabilidade nossa. Criei isso e vendemos para a Maresia, que patrocinou o circuito por seis anos consecutivos. Passei a pagar para a CBS quatro vezes mais do que ela recebia por cada evento. A entidade passou a ter uma rentabilidade segura, recebendo em todos os eventos e tendo uma verba para trabalhar o ano inteiro. As dificuldades que ela tinha são as mesmas que temos hoje. Nós não temos ajuda do governo, do COB, de órgão nenhum. A única verba que temos vem das nossas federações filiadas. Cada uma paga um valor simbólico e temos 16 ao todo, mas nem todas conseguem pagar essa anuidade.

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Dirigente espera fortalecimento do surfe depois da filiação ao Comitê Olímpico Brasileiro. Foto: Gabriel Macedo / XPro.

 
Os eventos têm se concentrado no Norte / Nordeste. Estados tradicionais como Santa Catarina e São Paulo não estão enviando suas equipes para o circuito de seleções. Qual a explicação?

São tempos diferentes. Desde 2010 temos muitas dificuldades econômicas no Brasil. Muitos atletas estão sem patrocínio, vemos os circuitos profissionais com dificuldades, as etapas do QS no Brasil passando por isso também e às vezes nem pagando as premiações… O que podemos falar é que temos nossas filiadas nessas regiões e elas têm priorizado os eventos profissionais e os da WSL. Para o Norte e Nordeste, isso tem sido uma cereja no bolo. É uma oportunidade para os estados crescerem. Temos agora uma atleta do Pará liderando o circuito nacional e disputando o ISA World Junior em Portugal. Mesmo assim, temos atletas de quase todas as regiões no Mundial. Essas federações parceiras estão priorizando os circuitos profissionais, algumas até com muita dificuldade, mas elas também têm seus circuitos de base que funcionam muito bem. A ISA, por exemplo, por oito anos fez seus eventos na América Central e na América do Sul, pois naquele momento essas regiões estavam querendo investir no surfe, esses países estavam com dinheiro. É o que está acontecendo agora, no Nordeste. Algumas federações têm conseguido parceiros em seus estados. Mas o que importa é que desde que nós assumimos, de 2010 pra cá, tivemos eventos do Brasileiro Amador e do Brasileiro Master em todos os anos. Em nenhum ano nós tivemos menos de três etapas nesses circuitos. As coisas continuam acontecendo do jeito que estavam ou até melhor, pois passamos a pagar premiação em dinheiro no Master, demos R$ 20 mil na categoria Pro Junior este ano, no Pará, R$ 10 mil no ano passado na Bahia e em Pernambuco. Estamos melhorando esse circuito, apesar de não ter etapas no Sul e no Sudeste, mas acredito que a partir do ano que vem a gente já volte a ter boas parcerias com nossas filiadas desses estados. Estamos renegociando com essas entidades e acho que a partir de 2017 a dificuldade vai ser promover somente quatro etapas de cada circuito.

E as dificuldades que a CBS enfrenta para levar as equipes aos eventos da ISA?


Hoje nós temos sete eventos da ISA. Quando assumi a CBS, eram três, e antes disso era apenas um evento a cada dois anos. Então, hoje em dia, pra gente conseguir trabalhar isso sem recurso só é possível graças aos surfistas, que se bancam e algumas vezes conseguem trazer grandes resultados.

Por que o Brasil ficou fora do ISA Games na Costa Rica?

Antes da minha gestão, tivemos um Mundial, também na Costa Rica, em que tínhamos alguns dos melhores atletas do Brasil, incluindo aí atletas que estão na elite mundial. Fomos para o evento e ficamos em nono lugar naquele ISA Games. Hoje nós temos no Brasil cerca de 200 atletas de ponta que poderiam trazer bons resultados. A nossa grande dificuldade é com o surfe feminino. Não é fácil conseguir duas mulheres de alto nível e que estejam dispostas a ir. Desses 200 atletas masculinos, os de primeira e segunda linhas geralmente não querem ir. Nós convidamos todos os atletas do CT para a Costa Rica, mas todos têm uma agenda muito cheia e não conseguem ir. O mesmo acontece com os atletas que estão no QS, lutando pela classificação e investindo todos os seus recursos. Aí vem o terceiro escalação, formado por aqueles atletas que estão tentando ficar entre os 100 do QS, tentando disputar as etapas mais fortes (QS10.000 e QS6.000). No ano passado tivemos um time incompleto. Um atleta sofreu contusão e não pôde competir. Teve também uma menina que contraiu dengue e nem viajou em cima da hora. Tivemos um péssimo resultado como equipe e chegamos à conclusão de que só valeria a pena ir com um time forte. E mesmo assim isso é ruim, pois temos uma parceria com a ISA e não fica legal deixar de mandar um time. Enviei uma carta explicando a nossa situação e o presidente Fernando Aguerre lamentou a nossa ausência, mas compreendeu.

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Adalvo em ação nas ondas de Mentawai, Indonésia. Foto: Bruno Veiga / Liquid Eye.

 
A CBS não consegue verba para bancar as despesas da equipe?

Nenhum país consegue patrocínio para a sua equipe. Os Estados Unidos têm um modelo mais interessante, pois lá eles têm uma associação dos fabricantes de surfwear. Eles juntam todas as marcas e patrocinam a equipe norte-americana. A Austrália e a África do Sul têm suporte do governo, hoje o Peru também, a Argentina costuma conseguir quando é o Mundial Sub 18. Alguns países têm facilidades, mas o que geralmente vemos é o atleta se bancando nas viagens. Com a crise, de 2008 para cá, muitas grandes marcas internacionais começaram a entrar em falência. Isso vem nos prejudicando muito. Mas já tivemos um grande apoio da Maresia, que investia nos circuitos da CBS e também dava suporte para a equipe brasileira. Em 2010, quando entrei como presidente, saiu a Maresia e entrou a Billabong, patrocinando o circuito brasileiro por três anos e também apoiando a equipe brasileira nos Mundiais da ISA. Eles ofereciam de passagem até roupa de borracha (quando o local do evento tinha água gelada). Essa época foi sensacional, mas infelizmente, de lá para cá, a economia brasileira e a situação das marcas de surfwear vêm piorando muito e a gente tem dificuldade em arrumar um patrocinador “umbrella”, que dê suporte para todos os nossos eventos e viagens. Hoje, acredito que seja mais viável conseguir patrocinadores para as equipes do Mundial Sub 18. As demais categorias eu acho mais complicadas - Open, Master, Bodyboard, Longboard, SUP, Surf Adaptado… São tantas modalidades hoje em dia que fica difícil a gente conseguir patrocinadores para todas. Espero que agora, com a inclusão do surfe nas Olimpíadas, a gente tenha uma verba com o COB para poder custear ao menos as equipes para os Mundiais, a partir de 2017.

O Governo Federal já apoiou a equipe brasileira em outras edições do Mundial. Você tem dificuldade em conseguir esse suporte atualmente?

Se não me engano, nos três últimos eventos da ISA disputados antes de 2009, nós tivemos apoio do governo. Eram apoios pontuais, não eram verbas para bancar todas as despesas. Tínhamos uma boa relação com o ministro Orlando Silva e ele sempre mostrava um grande interesse pelo surfe. Depois que ele saiu, estivemos com o ministro Aldo Rebelo, em Brasília, e depois ele baixou um decreto suspendendo o repasse de verbas a instituições sem fins lucrativos, ou seja, federações, confederações, ONG’s e algumas outras entidades não poderiam mais buscar recursos diretamente no Ministério. Essas verbas deveriam sair por intermédio de prefeituras ou secretarias de cada município ou estado. Se a gente tentar alocar uma verba dessa para entrar por uma secretaria ou por prefeituras, a grande maioria delas com problemas financeiros, corremos o risco de a verba entrar e a gente não conseguir viabiliza-la para o seu destino, que seria a equipe brasileira. Houve uma promessa do ministro Aldo Rebelo, mas não conseguimos concretiza-la devido às dificuldades com papeladas e documentos. Os trâmites ficaram bem mais complicados e a situação até hoje continua assim.

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CBS tem dificuldade para conseguir patrocínio para suas equipes nos eventos da ISA. Foto: Rommel / ISA.

 
E agora, com a inclusão do surfe nas Olimpíadas?

Pra gente, foi só esperar o dia 3 de agosto para se concretizar.  A ISA já vem trabalhando há anos e nos comunicando em todas as reuniões de que o surfe já entraria em Tóquio. Hoje, eu recebi uma ligação da secretária de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), pois já enviamos as devidas documentações solicitando a nossa inclusão como filiada. A secretária agradeceu pelo contato e informou que seremos chamados para uma primeira reunião logo depois da Paraolimpíada. Particularmente, acredito que a gente "nascerá" como um grande esporte. Acho que se entrássemos em um outro momento, não seria tão favorável. Certamente teremos um valor razoável para que a gente possa trabalhar ainda melhor com os atletas do Brasil.

Como será esse processo de filiação?

A CBS já é vinculada ao COB há uns 15 anos. O estatuto do COB não aceita filiação de entidades que não são olímpicas. A partir de 2017, teremos direito a voto e a todos os recursos de uma modalidade olímpica. Certamente teremos uma verba anual que não irá diretamente para a conta da CBS. Faremos um plano de trabalho junto ao COB para que possamos preparar esses novos atletas para a Olimpíada de 2020, e também para poder levar todos os times para os Mundiais, sempre brigando por medalhas. Ainda não sabemos como será esse processo, mas teremos recursos alocados para isso. Já recebemos uma carta do COI e da ISA recomendando que procurássemos o COB. A Confederação Brasileira de Surf é única entidade que tem direito de representar a modalidade dentro do Comitê Olímpico no Brasil. Somos a única entidade do surfe no Brasil, tanto para o Governo Federal, como para o Comitê Olímpico e para a ISA. Somos a entidade que vai representar o surfe brasileiro nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

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