NOTÍCIAS WAVESCHECK MENU
Rossini Maraca
Homenagem ao legend
Por Vanessa Corrêa em 08/11/16
FESERJ envia antiga entrevista com o legend Rossini Maranhão, que faleceu nesta terça, em Saquarema.
Legend brasileiro Rossini "Maraca" falece em Saquarema. Foto: Nilton Baptista.
Legend brasileiro Rossini "Maraca" falece em Saquarema. Foto: Nilton Baptista.

Em homenagem a Rossini Maranhão, o "Maraca" - falecido na madrugada desta terça-feira, em Saquarema (RJ) -, a Federação de Surfe do Estado do Rio de Janeiro (FESERJ) enviou uma antiga entrevista com o legend.

Confira a íntegra do bate-papo e saiba mais sobre um dos pioneiros do surfe brasileiro.

"O nome dele é Rossini Maranhão, o Maraca. Grande surfista da década de 60, um dos pioneiros do surfe carioca. Abriu as portas para o surfe de ondas grandes para os surfistas brasileiros, sendo o primeiro brasileiro a surfar em Waimea, 1969.

Perfil do atleta

Data de nascimento: 03/03/1950
Apelido: Maraca
Tempo de surf: 48 anos
Posicionamento na prancha: goofy
Quiver: 6”4, 6”9 , 7”2 , 9”4

 

Quando o surfe começou a fazer parte da sua vida?

Em 1963, no Leme e na praia de Copacabana, nos postos 2, 3, 4, 5 e 6, Arpoador, Quebra-Mar, nas praias da Barra da Tijuca, Macumba e Prainha, Grumari, Guaratiba, Saquarema, Cabo Frio e Búzios.

Faça uma comparação entre o surfe de hoje e de quando você começou, as principais mudanças desde as pranchas até os melhores picos de ondas...


O longboard tinha um estilo clássico e o noseride era a manobra mais considerada. Aí, comecei a surfar com a maior rapidez e fazendo manobras, dando viradas na base, passagens rápidas nas paredes, cobrindo assim uma maior extensão nas ondas. O hang-five, ou strecth, era a posição mais segura e luxuosa para passar as paredes.

Como você se sente sendo o primeiro brasileiro a surfar Waimea?

Eu me senti um big rider mesmo, desse dia em diante, porque eu caí num dia de 22 a 25 pés de oeste, com a maior força d'água e gigante, em 1969, mas perfeito, daqueles impressionantes. Depois que saí da água, à noite, não conseguia dormir de maneira nenhuma, porque não baixava a adrenalina. Fiquei impressionado com aquelas verdadeiras montanhas d'água que surfei, e achei que foi uma atitude “over” e aquela situação vinha de novo na memória, mas como eu encarei concentradíssimo eu tinha certeza de que poderia dropar porque estava preparado fisicamente e com fôlego em dia. Já tinha caído em Sunset 15 pés várias vezes, principalmente em outros dias de 18 pés que são piores que Waymea.

Já tinha passado por uma situação de vida ou morte com o Eddie Aikau, quando estávamos lá fora num dia de 18 pés, e ondas de 25 a 28 pés fecharam de Backyards a Pipeline, quando tive o fenômeno psíquico de ver toda a sua vida toda em um ou dois segundos, passar o filme - como dizem quando você pensa que vai morrer mesmo ou você sabe que passou dos seus limites. E graças ao meu preparo físico e ao fôlego de 2 minutos e meio a três que eu tinha, me salvei no extremo limite, quando pensei que não ia dar mais.

Qual a dica para surfar Waimea?

Muito preparo físico, estar bem concentrado e com o fôlego em dia. Não se pode achar que é fácil, porque não é. Sempre esteja com um equipamento especial para o tamanho do mar. Já no point, primeiro, a entrada no quebra-côco é radical e se você não espera o momento certo, você pode ficar ali apanhando radical e pode até quebrar a prancha ao meio ali mesmo.

Depois que passar o super quebra-côco, uma Itacoatiara grande, você começa a remar lá pro outside com cuidado pra não ficar na zona de impacto, e é bom saber se a maré está enchendo ou esvaziando, porque a força d”água é imensa e se a maré estiver enchendo você rema o dobro. Na vazante é bem mais fácil, mas você tem que olhar constantemente pro horizonte à direita, se for um swell de norte, e à esquerda, se for de oeste, que é mais perfeito, mas muito mais perigoso, pois toda hora vem uma mais pra fora.

No swell de norte vêm algumas mais pra cá e outra mais pro canto da pedra, e às vezes você se posiciona pro pico mais da esquerda e vem uma mais pra fora, aí você engole geral. Não é mole, tem que estar ligado geral, as ondas são enormes e você tem de estar bem posicionado, senão a remada vai começar em lugar errado e aí você cai lá de cima, ou a onda fecha, porque Waimea tem um detalhe a mais, que é o “elevator”. Quando você rema e sente que entrou na onda e você pensa que vai despencar, a onda ainda te dá uma subida e aí, assim, você despenca geral. Tem de estar preparado para esta jogada, senão você se assusta e cai lá de cima, aí, sim, terá problemas mesmo. A despencada é absurdamente perigosa porque caem milhões de litros d’água em cima e parece que você não vai subir mais, parece que seu corpo será esquartejado quando a onda cai em cima, além de a onda que vem atrás também vai te pegar, e aí você tem problemas ainda maiores, pois seu fôlego já está comprometido. Se você não estiver em excelente forma física, pode acontecer algo indesejável, que é beber água. Se ficar com medo, a adrenalina te domina e diminui sua resistência. Há situações graves de ter que chamar o helicóptero ou jet-ski porque você não tem mais força pra sair dali. E já aconteceu isto com vários surfistas - eles chamam o helicóptero que fica lá nos dias mais cascudos e têm que pagar US$ 500 dólares em dois ou três dias, senão você vai ser processado. E tem que pagar mesmo.

Conte um pouco da sua carreira como surfista profissional.

Estive em muitas finais, no Havaí, no Peru, no Brasil. Conquistei várias colocações, segundos, terceiros, quartos, quintos lugares, e os mais expressivos foram o de vice-campeão brasileiro em Ubatuba e o sétimo lugar no Mundial de Ondas Grandes de Punta Rocas, no Peru, quando venci campeões de vários países e todos ficaram chocados com minha excepcional e radical performance. Só não fui melhor na final porque as ondas de 15 pés entraram na hora que cheguei ao outside e levaram minha prancha depois de sucessivos caldos. Como não tinha cordinha, acabei perdendo a prancha lá fora e nem pude surfar na grande final. Só nadei de volta e quando cheguei lá fora de novo, a bateria acabou.

Uma experiência radical no surfe...

Estava em Pico Alto, Peru, em 1968, surfando 20 a 22 pés, quando uma série maior, de 25, 26 pés, entrou e me engoliu radicalmente, os quatro surfistas - eu, Keith Paul, campeão australiano, os super big riders peruanos Guilherme Wiese, Chino Malpartida e Pocho Awapara, que estavam lá fora comigo, a 1km da praia. Pensei que ia morrer, passou o filme também, tomei uns trinta caldos inacreditáveis porque a onda em Pico Alto, quando quebra a espuma, cresce cada vez mais, não deixa afundar e te carrega por centenas de metros, não deixando você respirar.

Quando você consegue parar, a espuma tem uns 2 metros de altura e aí você não vê quando a próxima vem, com aquelas ondas monstruosas e uma força estupenda, geladas. Daí nadei quase duas horas pra chegar à areia, passando por várias arrebentações. E só quem sabe é quem surfou lá, o sufoco brabo que é. A prancha foi parar lá no El Silencio. Depois desse dia, fiquei consideradíssimo lá no Peru, inclusive fui convidado pra jantar com tudo pago pelos peruanos. Pela coragem que demonstrei naquele dia e a sorte que dei, porque minha prancha não quebrou ao meio.

Qual a dica que você daria para quem quer levar o surfe como profissão?

Treinar com dedicação e fazer um trabalho de preparo físico, psíquico. Muita dedicação, concentração.

Ping Pong

Melhor…

Onda: Jeffrey’s Bay
Tubo: Sunset Beach
Manobra: Snap back
Esquerda e direita: Praia de Itaúna e Jeffrey”s Bay
Trip: África do Sul
O que não pode faltar na mala: Dinheiro.
Pico do Rio: Arpoador Clássico
Pico do Mundo: Sunset Beach
Surfista: Gabriel Medina
Shaper: Carlos Roberto L”Astorina
Música: Diane Krawl
Filme: Missão Impossível
Livro: Transição Planetária
Comida: Peixe na Brasa e frutas
Time de futebol: Flamengo

Deixe uma mensagem para a nova geração do surfe: Aproveitem, porque praticar o esporte em conjunto com a Natureza é o máximo.

Créditos: Vanessa Corrêa – FESERJ

Veja também
Juca de Barros

Juca de Barros

Memórias da base

Lucas Chumbinho

Lucas Chumbinho

Brilhante em Jaws

Adriano de Souza

Adriano de Souza

Chama acesa

Gerry Lopez

Gerry Lopez

Legend zen

Yago Dora

Yago Dora

Pé na elite

Lagoa Surfe Arte

Lagoa Surfe Arte

A grande sacada

José Eduardo

José Eduardo

No topo do Rio

Phil Rajzman

Phil Rajzman

Foco de campeão mundial

Cleiton Félix

Cleiton Félix

Volta por cima em Ubatuba (SP)

Tom Veiga

Tom Veiga

Das ondas para as telas

Kelly Slater

Kelly Slater

Momentos de reflexão

Chloé Calmon

Chloé Calmon

Focada na missão

Adriano de Souza

Adriano de Souza

Papo com o campeão

Bruno Tessari

Bruno Tessari

Papo com o filmmaker

Margaret River

Margaret River

Papo com Mineiro

Gustavo Belloc

Gustavo Belloc

Desafios do mercado