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Juca de Barros
Memórias da base
Por Emerson Miranda em 20/11/17
Juca de Barros relembra trabalho como presidente da CBS (Confederação Brasileira de Surf).
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Juca de Barros com Alejo Muniz, Miguel Pupo e Jadson André na época em que comandava a CBS (Confederação Brasileira de Surf). Foto: Arquivo pessoal.

 

O empresário paranaense Juca de Barros comandou a Confederação Brasileira de Surf (CBS) de 2002 a 2009, período em que ganhou diversas medalhas com a equipe brasileira no ISA Surfing Games.

 

Advogado, professor de educação física e especialista em administração esportiva, ele atualmente dirige uma assessoria voltada à entidades, atletas e eventos, além de comandar o Aloha Surf Clube na Praia Brava de Matinhos (PR).

 

Na entrevista abaixo, Juca conta como começou no surfe, fala da experiência à frente da CBS e, entre outros assuntos, destaca a importância das categorias de base para o futuro do surfe brasileiro.

 

Quando foi o seu primeiro contato com o mar e então, em seguida, conectando com o surfe?

 

Meu primeiro contato foi aos 3 meses de vida, em dezembro de 1958. Meus pais me levaram para nossa casa de praia em Caiobá, um balneário de Matinhos, no Paraná. O amor ao surfe começou quando meu pai construiu nossa casa na Praia Brava de Matinhos, em 1969. As ondas me fascinaram e no verão de 1976 e comecei a surfar.

 

Depois dessa conexão, como foi para você participar, organizar e se envolver com o surfe pensando também nas próximas gerações?

 

O primeiro evento que fiz foi no inverno de 1981, Campeonato Paranaense, com altas ondas no Pico de Matinhos e nas direitas de Guaratuba. Depois organizei o primeiro Torneio AeroPeru de Surf, no verão de 1983 na Praia Brava, e a segunda edição em setembro no Pico. Foram os primeiros eventos a nível nacional no Paraná.

 

No verão de 1984, organizei a primeira edição do Summertime Surf Sul e no verão de 1985 a segunda edição, onde o capixaba Nelson Ferreira ganhou uma Chevy 500 de prêmio. Fundei a Associação Paranaense de Surf, a Federação Paranaense de Surf, fui presidente da Confederação Brasileira de Surf por duas gestões e vice-presidente da Pan American Surf Association por três gestões.

 

Todo meu trabalho à frente da CBS foi fomentar a base do surfe brasileiro, realizando o Circuito Brasileiro Amador, onde foram formados os atletas que representam atualmente o Brasil, no Circuito Mundial de Surf.

 

Como funciona a organização de base mundo afora? A parte jurídica destas organizações, a busca de apoios, escolinhas, patrocínios, eventos...

 

O surfe institucional é totalmente desorganizado, tanto a nível nacional como internacional. Claro que algumas associações, federações nacionais e internacionais têm um trabalho muito bem-estruturado, mas a grande maioria é entidade de fundo de garagem e reféns de maus dirigentes.

 

Quando eu era presidente da CBS, nos tínhamos uma estrutura muito boa, apoiada pelo Ministério do Esporte e pelo Comitê Olímpico Brasileiro.

 

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Para empresário, Pico de Matinhos é o celeiro natural de novos talentos do Paraná e precisa ser valorizado. Foto: Jhesus Eduardo.

 

Quanto isso valeu para a entrada do surfe nas Olimpíadas?

 

Fernando Aguerre, presidente da ISA (International Surfing Association), e Maile Aguerre foram incansáveis para que o surfe entrasse para os Jogos Olímpicos, mas, em minha opinião, não é um esporte para este evento e sim para um X-Games, por exemplo.

 

Sendo advogado, você colaborou largamente nessa empreitada jurídica de entidades que querem organizar o surfe de base. Na sua opinião, qual a importância de uma associação de surfe?

 

Sou advogado, professor de educação física e tenho mestrado em Administração Esportiva. Meu escritório oferece assessoria esportiva e jurídica para entidades, atletas e eventos esportivos. O Sistema Nacional do Desporto, hierarquia governamental do Ministério do Esporte, determina que abaixo do órgão venha o COB e depois, na ordem, Confederações Nacionais, Federações Estaduais, Associações e Clubes regionais.

 

Estes últimos são o elo principal de ligação para a formação de atletas, que depois competem nos circuitos estaduais, nacionais até chegarem às seleções brasileiras amadoras que representam o país nos eventos da ISA.

 

As associações de praia são as responsáveis pelo início da formação do atleta. É como se fosse a escola que ensina alfabetizar a criança. Sem elas, o surfe não teria como descobrir novos talentos. Na minha opinião, estas entidades, desde que bem-estruturadas e organizadas, são de fundamental importância para a revelação de novos talentos no surfe.

Quais são as medidas para que o surfe evolua na base brasileira, agregando valores aos picos do País também?

 

Como já mencionei, quando presidente da CBS, tudo funcionava perfeitamente, inclusive tínhamos um programa de Controle de Dopagem. Hoje não posso dar detalhes, mas não temos mais um Circuito Brasileiro decente; as seleções nacionais estão trazendo resultados pífios, longe da realidade e do potencial que temos no litoral brasileiro, tanto de atletas como de picos de surfe.

 

A profissionalização só melhora ou também pode criar maus administradores também? Como vimos no caso de Carlos Nuzman recentemente no COB (Comitê Olímpico Brasileiro)...

 

Sem dúvida, isto não só envergonha o esporte brasileiro, mas os atletas, que são os principais atores do espetáculo, são extremamente prejudicados com estas atitudes despóticas.

 

Qual o segredo para formar campeões mundiais como Adriano de Souza e Gabriel Medina?

 

Eles fizeram uma boa formação na base, tiveram pessoas que cuidaram de suas carreiras, além do talento claro; são educados, profissionais e competentes no que fazem. Receita certa para se tornar campeão.

 

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Gabriel Medina durante o Mundial da ISA em 2010: trabalho com a base é fundamental para gerar novos campeões mundiais. Foto: Divulgação ISA.

 

De que forma buscar a excelência em todas as esferas da vida, efetivamente, gera resultados?

 

A busca pela excelência é fundamental para a formação de um profissional competente. Quando se atinge este nível, apoiado por uma equipe multidisciplinar, os resultados aparecem.

 

Depois de tanto tempo envolvido na linha de frente da base do surfe nacional, com uma excelente equipe de profissionais, como foi deixar o comando da CBS e assistir a todas essas mudanças?

 

Não gosto de comentar sobre a situação que hoje a CBS vive. Quando trabalhei lá, o pior resultado em ISA Games foi um nono lugar, no ano que a ISA tinha liberado profissionais do CT competirem. Nossa equipe era Medina, Pupo, Kimerson e Fernandez, uma ótima e jovem equipe, mas a França, Austrália, EUA e outros países levaram a linha de frente dos Pros.

 

Antes disso, nunca ficamos fora dos pódios, sendo uma vez campeão mundial Júnior (2003, Durban), octacampeão pan-americano, campeão dos primeiros Beach Games, evento organizado pela ODESUR, no qual fomos com a delegação do COB. Várias medalhas de prata e bronze foram conquistadas nestes 8 anos.

 

Sou a favor da renovação institucional a cada quatro anos, como prevê a lei. A manutenção nos cargos de entidades esportivas por maior prazo visa única e exclusivamente a interesses escusos. Deixei a CBS depois de duas gestões extraordinárias e que hoje podem ser vistas nos resultados obtidos pelos atletas que fizeram parte dela.

 

Infelizmente, não foi dado continuidade neste trabalho, por pura incompetência e falta de comprometimento com o esporte; torço para que este quadro atual seja revertido. Hoje presto assessoria profissional se for contratado e não vou mais colaborar como dirigente esportivo no surfe.

 

Como é o trabalho do Aloha Surf Clube?

 

O Aloha Surf Clube é um conceito inovador em Matinhos. Fica no Juca's Point, na Praia Brava de Matinhos. Temos um bar onde vendemos cervejas, sucos, sanduíches, porções, refrigerantes, água e açaí. Alugamos, consertamos e pintamos pranchas de surfe. Vendemos acessórios e o clube conta com um painel de fotos da História do Surf Paranaense, tela com filmes de surf, slackline, pingue pongue e dardo.

 

Nos finais de semana do verão bandas de rock e reggae tocam ao vivo. Tenho também uma equipe de surfe, com um atleta Open (Eve Mattos), a tetracampeã paranaense Andressa Carvalho, uma atleta de longboard (Bárbara Sieno), uma free bodyboarder (Sabrina Mourão) e um Pro de Bodyboard (Léo Mendes). Oferecemos também aulas de surfe.

 

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Juca de Barros comanda atualmente o Aloha Surf Clube, na Praia Brava de Matinhos. Foto: Arquivo pessoal.

 

Qual o potencial de Matinhos para o surfe brasileiro?

 

Matinhos tem um potencial muito grande, talentos e ondas. Atualmente a Federação voltou a desenvolver um circuito de boa qualidade e temos vários atletas da nova geração aparecendo.

 

Na questão da educação ambiental, ela é de fundamental importância para a preservação de nosso litoral. A consciência em relação a isto vai oportunizar que novas reservas de surfe apareçam em breve. O litoral norte do Paraná tem esta característica, altas ondas, inóspito e bem cuidado pelos órgãos governamentais de nosso estado.

 

O que espera da Olimpíadas no Japão?

 

Torço por nossos atletas e por nossa bandeira, mas vamos esperar o resultado final.

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