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Uri Valadão
Retrospectiva mundial
Por Uri Valadão em 24/04/17
Campeão mundial em 2008, Uri Valadão estreia coluna no Waves e faz um balanço sobre as mudanças no Mundial de Bodyboarding.
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Uri Valadão, campeão mundial em 2008, é o novo colunista do Waves. Foto: Cayetano.

 

É uma grande satisfação estrear minha coluna aqui no Waves. Vejo este canal como uma grande oportunidade para falar do bodyboarding e trazer a vocês um pouco mais de informações deste esporte que tanto apreciamos.

Inicio fazendo uma retrospectiva do circuito mundial de bodyboarding para que vocês entendam como chegamos até aqui. Há algum tempo temos vivido momentos de transições.

Tudo começou em 1983, quando aconteceu o primeiro campeonato mundial, disputado em Pipeline, Havaí. Naquela época só existia este único evento, que definia o campeão do mundo. Foi nesse período que a lenda Mike Stewart reinou durante anos, sendo praticamente imbatível e conquistando diversos títulos.

Em 1994, começou a “era” Guilherme Tâmega. “GT", como também é conhecido, chegou assombrando o mundo e fez história em Pipeline ganhando seu primeiro título mundial em condições insanas, com ondas de 15 pés. Foi o último ano desse circuito “solitário”.

Em 1995, surgiu a GOB (Global Organization of Bodyboarders), instituição que passou a dirigir o esporte. Nesse momento, o bodyboarding explodiu e o circuito chegou a ter até 10 etapas durante o ano, passando por vários países de diferentes continentes, diferentes tipos de ondas (mas a maioria em ondas pequenas), com boa estrutura e premiação.

Segundo relatos de alguns atletas que competiram nessa época, foi o auge do bodyboarding. GT seguia praticamente imbatível. Ele sempre foi muito bom em todas as condições de mar e acabou sendo campeão mundial em três anos seguidos. Ainda havia Paulo Barcellos, Fabio Aquino, Daniel Rocha, entre outros craques brasileiros que vinham fortes com GT.

Os estrangeiros passaram a se incomodar muito com o fato de um brasileiro dominar o cenário. Chegaram ao cúmulo de aumentar a pontuação de Pipeline (última etapa) no meio do circuito, para possibilitar que outros competidores entrassem na briga pelo título, já que GT sempre chegava no final liderando.

Foi nessa época que André Botha conquistou seus dois preciosos títulos mundiais em disputas acirradas com GT. Um desses títulos, inclusive, foi bastante duvidoso e contestado. Em 2000, veio mais uma importante conquista, com Paulo Barcellos roubando a cena e trazendo outro título mundial para o Brasil.

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Guilherme Tâmega é um dos maiores nomes da história do bodyboarding. Foto: Gonzo.

 
Com muitas etapas acontecendo em ondas pequenas e os brasileiros sendo dominantes, alguns atletas havaianos e australianos começaram a boicotar o circuito. Foi aí que a GOB foi perdendo força até ser extinta. Nesse momento, surgiu um novo circuito conhecido como Super Tour, que passou a ser gerido por australianos. Era um circuito apenas de ondas grandes e incríveis. O formato da competição também foi mudado. Os atletas surfavam baterias em diferentes momentos, divididas em fases. O vencedor do evento era aquele que tivesse o maior somatório acumulado ao final das fases.

Era aparentemente um circuito dos sonhos para quem via de fora e, também, para alguns poucos atletas free bodyboarders que conseguiam viajar e participar de todos os eventos. Mas, na verdade, era completamente insustentável, apesar das ondas incríveis. Não existia um retorno comercial para grandes empresas, pois muitos eventos eram em locais de difícil acesso ao público, logo os investimentos eram mínimos. O mercado do bodyboarding ainda não se sustentava, não sendo capaz de manter esse formato.

Além disso, poucos eram os atletas que tinham condições de viajar para esses eventos (95% era australianos). Entretanto, mais uma vez GT apareceu no caminho, quebrando esse domínio e mostrando que a cada desafio imposto, maior era a sua força. Ele provou ser tão bom em ondas grandes como em ondas pequenas, conquistando mais dois títulos mundiais.

Com a dificuldade de sustentar um circuito neste padrão, foi a vez do Super Tour perder força e ser extinto. Foi aí que surgiu uma nova instituição conhecida como IBA (Internacional Bodyboarding Association), que começou com pouco recurso, mas com boas intenções, afim de montar uma base sólida.

A IBA trouxe algumas propostas interessantes, uma delas era a ideia de fazer duas divisões: uma de acesso (GQS – Global Qualifying Series) e uma de elite ( GSS – Global Super Series).

O esporte começou a se reerguer, com muitos atletas de várias partes do mundo brigando por uma vaga na elite. Na ocasião, a IBA decidiu classificar alguns eventos do GSS como Grand Slam, de acordo com a qualidade das ondas. Esses eventos tinham o dobro da pontuação, assim como acontece no circuito mundial de tênis.

O circuito foi se fortalecendo e apareceram alguns investidores dispostos a apostar no futuro do bodyboarding. O tour ficou incrível, com etapas em ondas boas, com boa estrutura, transmissão ao vivo de alto nível e um formato bem bacana. O esporte deu um "boom" e o número de pessoas que passou a acompanhar o bodyboarding triplicou. Mas, infelizmente, houve desavenças entre os sócios e todo o trabalho que estava sendo realizado foi por água abaixo. A IBA foi extinta.

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Paulo Barcellos foi campeão mundial em 2000. Foto: Gonzo.

 
Mais uma vez, o esporte teve que tomar outro rumo e recomeçar. Os atletas resolveram se unir e tomar uma atitude, fundando, junto com Alex Leon (atual presidente), a APB (Association of Professional Bodyboarders). Esta instituição passou a gerir o circuito mundial e continua até hoje.

O circuito vem se fortalecendo nos últimos anos, e, nós atletas, juntos com a diretoria da APB, temos nos esforçado bastante para colocar o bodyboarding mundial onde ele realmente merece. Como todo esporte jovem, essas transições e mudanças são naturais. Tenho visto muita gente que ama o esporte se frustrando com tantos altos e baixos. As pessoas têm o péssimo hábito de querer comparar o momento atual do bodyboarding com o do surfe. Não tem como ser comparado a um esporte com tantos anos na nossa frente. Em vez disso, devemos nos espelhar no que o surfe tem de interessante (porque o trabalho que a WSL tem feito é admirável) e seguir trabalhando duro pelos nossos sonhos dentro do esporte.  

Tenho competido no circuito mundial há quase 15 anos e vi tantas mudanças que nada me surpreende mais. Algumas coisas loucas e outras boas... Há uma busca constante dos atletas e dirigentes para encontrar o formato ideal. Mas sigo acreditando e penso que estamos no caminho certo para voltar a ter um circuito estruturado, com patrocinadores fortes, e que nos permita continuar competindo e vivendo do esporte.

No próximo texto, continuarei escrevendo sobre o Mundial de Bodyboarding, dessa vez sobre o momento atual. Valeu, galera!

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