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Bastidores de Peniche
Por João Guedes em 17/10/14
João Guedes escreve sobre os bastidores do Moche Rip Curl Pro Portugal, etapa do WCT que rola em Peniche.
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Peniche, palco do Moche Rip Curl Pro Portugal. Foto: David Nagamini
 

Domingo último, resolvi, à tarde, que viajaria para Portugal a fim de ver o primeiro título mundial de um brasileiro. Ocorreram, então, conversas rápidas com a mulher, que pouco entendeu a razão de tudo aquilo. Inesperadamente, entre justificativas emocionais, pouquíssimo convincentes para quem não sabe completamente quem é Gabriel Medina, a sua jornada, o seu destino... a concessão veio. Lá estava ela a dizer-me: vá e tomara que a história se faça diante de seus olhos. Era exatamente o que sentia, era exatamente o que esperava ver. Sentia-me como um moleque, na década de 80, viajando a Santa Catarina para assistir ao Hang Loose.

O fato é que possivelmente tenha pesado sobre gesto tão generoso de minha mulher os meus gritos de euforia a cada fase do Circuito Mundial. Suspeito mesmo que a ausência de voz depois da etapa do Tahiti comoveram-lhe o coração e a animaram a oferecer esse presente ao marido de meia idade, surfista há muito e, hoje, sem grande tempo para o mar. Telefonemas para adquirir as passagens, hotel reservado, beijos nas crianças. Estava decidido, eu iria. Um feriado inesperado no trabalho apenas confirmava a minha intuição: era agora, tinha de ser agora, somente poderia ser agora. É claro que atravessar o Atlântico, animado por decisão apressada, para ver um campeonato de surf, causou em meus amigos um misto de inveja e incompreensão. Já em mim: o sonho de ver os meninos do Brasil, o sangue nos olhos do Jadson e do Mineiro, o talento do Filipe, o estilo o Pupo, a força do Alejo, o depósito de esperança do Raoni; e claro, aquele que atende pela alcunha de Medina. Fiz as malas e fui.

Portugal ou a coleção inexplicada de day off

Peniche não é uma cidade bonita, por certo. Entretanto, a cada hora que passo aqui descubro um novo pico, um lugar para surfar com essa ou aquela condição. Estou longe ser especialista nessa terra, mas suspeito que, por essas veredas, qualquer variação de vento ou ondulação encontrará um terral, fundo perfeito e boa comida para acalmar o corpo cansado.

O fato é que o campeonato, como em outros anos, foi designado para ocorrer em Supertubos, lugar sagrado entre os portugueses. Ouso mesmo dizer que se pronuncia, entre os locais, o nome dessa praia com certo respeito, quase em silêncio. O problema é que este ano, quando os olhos do mundo se voltam para Supertubos, as condições são péssimas. Vento maral, sem fundo... Há dias, essas são as condições. No primeiro dia, fui até o campeonato. O maior palanque que já havia visto, repleto de lojas, uma da Rip Curl com uma foto enorme do Medina. Parecia o castelo de Grayskull. Ninguém no mar. Pensei que me metia na maior roubada da minha vida... Até que encontrei dois portugueses com quem entabulei uma breve conversa. "Aqui está um lixo", falavam-me envergonhados... Os Tops estão em Baleal, no treino. Com as coordenadas em mãos fui para lá.

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Gabriel Medina mostra foco impressionante em Portugal. Foto: Fábio Dias / Lemosimages.com
 



A primeira vez que a ASP desce aos infernos

Quando chego em Baleal, ondas e mais ondas. Um terral forte, 6 pés de onda e subindo. Peniche é uma península. Maral em Supertubos, terral em Baleal e vizinhanças. Onda rodando, mar clássico, JJ no mar com um tubo atrás do outro. Fico maluco. Excelentes condições. Vou para o almoço com a cabeça quente, atordoado. Na mesa ao lado, Jadson e Pupo.

Entabulamos uma conversa. Meninos simpáticos. No fim, a sugestão de que o campeonato inicia na segunda. Pergunto de Baleal, do terral, dos tubos... Nada parece fazer sentido. Vou ao site da ASP, o comissário justifica a interrupção com inúmeras desculpas. Todas falsas. No fim de tarde, pico da Mota já tem quase 10 pés. Decido, então, postar no fórum do Waves as impressões do campeonato. Havia resolvido que, para o bem ou para o mal, relataria o que via por essas veredas. Com o passar das horas, nascia em mim a vontade de encontrar a família Medina, quem sabe entrevistar o Charles, a quem conheci seis anos antes, num campeonato em Santa Catarina, no qual Gabriel havia vencido espetacularmente. Desde lá, acompanho o menino. Ano após ano, surpresa após surpresa. Não sei sobre vocês, leitores, mas ver nascer um fenômeno do esporte, vê-lo crescer e ganhar corpo diante dos seus olhos é algo muito emocionante. Para mim que sou pai de três crianças, portanto mais velho, a figura do Charles, que tanto apanhou por isso ou aquilo, sempre causou-me admiração. Somente quem o vê na praia sabe do que estou a dizer. O cara está lá, olhando o menino, comentando cada onda.

Traído pela ASP, pelo comissário com cara de madeira, preso no labirinto de Grayskull, estava decidido a fechar o ciclo com uma entrevista com o treinador do Medina.

O prelúdio

Hoje, pela manhã, vou a Baleal. Sento no mesmo café, no canto direito da praia. Lá quebra ondas maiores do que no esquerdo, onde a gurizada pratica. Seis pés com séries maiores. No mar, muitos Tops. Mineiro quebra com sua roupa verde. Muito foco! O cara surfa com uma seriedade... Força em cada manobra. Logo, ele sai. Troca de roupa e encosta no carro. Vou até a areia. Sento-me. Não tarda, vou até ele e digo: o Medina vai levar essa, mas eu torço muito para você. Ele sorri largo, agradece três vezes. Sinto que o título mundial o move, que o deseja mais do que possamos imaginar. Seria ele o predestinado se... o jovem não tivesse aparecido. Vai entender, não há justiça na vida... Mas continuo torcendo para que ele ganhe esse título, ninguém merece mais do que ele. Sempre lembro de uma entrevista do Mineiro após o segundo lugar na Austrália. Ele dizia: mudei a minha maneira de surfar, preciso entender o julgamento. Suspeito que ele conseguiu muitíssimas coisas desde lá, embora acho que lhe falta ser completamente aceito por Grayskull...

Opa, Freddy P pega um tubão, 8 pés. A praia vai ao delírio. Penso no comissário, na passagem marcada para domingo, tenho raiva... Lá está o segundo momento em que a ASP desce aos infernos. Peço uma coisa para comer enquanto o havaiano sai da água. Cercado, crianças, fotos... Ele mereceu a atenção. Ao meu lado, conversa com um australiano sobre o mar. O esporte é falar mal da ASP. Mais para o fim da varanda, um italiano, careca, cerca de 40 anos e acima do peso, toma café com a família. Três crianças e a mãe. De repente, ele grita: “Medina!” Foi engraçado vê-lo a largar o café, pegar a câmera e correr em direção à praia. Volto meu olhar para o lado, e vejo o moleque correndo, sem olhar para o lado, em meio aos incrédulos... Falo em meia voz, a besta chegou...

A praia suspende a respiração. Ele não para, não olha para ninguém... Pensei: de onde vem essa determinação? Se o cara treina assim, ele veio para ganhar. Dez minutos depois, o Charles aparece. Tomo o último gole de água, está decidido: vou em busca da entrevista.

O treinador

Aproximo-me e lembro-lhe do campeonato de Santa Catarina, do artigo que escrevi para o Waves em que narrava o nosso encontro no estacionamento. Encontro alguém muito receptivo. Pergunto-lhe como está o moleque e ele responde que está muito focado. Que nunca o tinha visto assim. Lembramos os campeonatos dos últimos cinco anos. Ele chora rapidamente, eu também. Lembramos do primeiro WQS ganho pelo Gabriel, na Mole.

Confessa que o CJ começou a gostar do moleque lá. Ele lembra do cara assombrado com o menino de 16 anos. Nunca tinha imaginado o CJ desse modo. Ganhou a minha simpatia. O restante da família chega. Slater encontra um aéreo muito grande, a manobra do dia. Vibramos! Gabriel quebra de backside. Duas redes de TV o acompanham, gente bacana. Duas! Não há viva alma ao redor dos Medina, eles parecem formar um núcleo duro, intransponível. Falamos sobre o Tahiti, a Gold Coast, Fiji. Mas o bonito foi ouvi-lo sobre J-Bay: o Gabriel precisava de onze... Estava tudo perdido, aí ele faz um nove! Você, entende, João: ele acredita, ele acredita... E eu, Charles, acredito nele.

Nesse momento, o careca sai da água. Uma multidão o cerca. Bruno Santos, com roupa igual ao moleque, sai na nossa frente. O Charles pergunta-lhe: achei que era o Gabriel. Bruno, rápido: sai aqui para ele sair sozinho mais abaixo. O careca e a multidão, Gabriel só com os seus. Ele vem em nossa direção. Sério, sem rir... Um brasileiro, com uma bandeira, faz graça. Raphael, produtor de uma rede de televisão, foi até o careca e disparou: você acha que o título do Gabriel, neste ano, é irreversível? Ao que ele responde: se depender de mim, não. Com todo o respeito, achei o moleque muito mais focado... Acho que, dessa vez, não dependerá dele.

Charles concede entrevista para uma TV. Simone, o centro de tudo, antecipa o seu almoço. Depois de duas horas, vi uma família inteira, feliz. Mas vi também uma tranquilidade. Se não for agora, será depois, disse o treinador. Falta apenas combinar com o Gabriel, que, me parece, veio para ganhar, com sangue nos olhos e faca nos dentes.

Fui encontrá-los no gauchão. Em três mesas, a família. Na outra, Medina, Pupo, Alejo... Resolvi ir-me. Precisava trocar de passagem, planejar a ida para Nazaré amanhã. Hoje, deu 25 pés. Burle cai amanhã cedo, disse Raphael da TV. Até lá.

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