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Retrospectiva da temporada
Por João Guedes em 25/12/14
João Guedes resgata alguns momentos marcantes do Tour em 2014 e destaca personagens como Kelly Slater, Jadson André e Gabriel Medina.
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Para João Guedes, Kelly Slater não é somente o maior surfista de todos os tempos. Ele é o mais articulado e inteligente do Tour. Foto: Bruno Lemos / Liquid Eye
 

Dias depois da vitória de Gabriel e com o anúncio das férias de fim de ano, é hora de reorganizarmos os caminhos percorridos em 2014. É hora, pois, de uma breve retrospectiva dos acontecimentos que mais marcaram o ano. Quando criança, os últimos dias de dezembro eram repletos de programas que revelavam, sob uma edição sem graça, aqueles fatos que marcaram os últimos doze meses.

Para mim, aquele prato sempre me parecia requentado, gosto de comida do dia anterior cujo gosto ainda se faz presente no paladar. Por isso, a minha retrospectiva de 2014 ignorará a semifinal entre o sanguinolento e o menino loiro no Tahiti, a polêmica final entre Gabriel e Julian no arquipélago e a surpresa do primeiro lugar na Gold. Sobre esses temas, eu acredito que, devido a sua grandeza, muitos outros dedicar-se-ão em esmiuçar cada centímetro de pano que lhes cobre o corpo.

Retrospectiva não deve ser um resumo de tudo, mas uma eleição daquilo que foi mais emblemático e significativo entre um conjunto de acontecimentos. Uma boa retrospectiva, acredito, tem de lançar luz sobre o passado e, quem sabe, apontar para o futuro…

O depoimento de Kelly no Rio de Janeiro

Kelly Slater não é somente o maior surfista de todos os tempos. Ele é o mais articulado e inteligente do Tour. As suas entrevistas, embora algumas vezes pareçam arredias aos brasileiros, são sempre esclarecedoras e muitíssimo acertadas. É claro que eu mesmo já fiquei cabreiro com o sanguinolento, sobretudo naquela vez em que "descascou" Jadson depois da vitória do potiguar em Imbituba (SC). Entretanto, com frieza, havia algo de agudo na sua análise e suspeito que Jadson reconhece isso. Basta ver a mudança do seu surf nos últimos anos.

Mas estamos no Rio de Janeiro, no Postinho, no pior mar de todas as etapas do WCT. As baterias são uma loteria. As ondas irregulares e a derrota de Gabriel foram a confirmação de que o talento perdia de muito para a sorte, embora a técnica de Travis, na onda que confirmou a sua vitória, seja inquestionável. Gostaria apenas que as chances fossem iguais para todos...

Dois dias após a derrota de Gabriel, o sanguinolento, com muito equilíbrio, dispara, durante uma entrevista, justamente um comentário que concentra os principais argumentos dessa análise.

O curioso é o contexto do depoimento, pois o único surfista cuja derrota, em todo evento - pelo menos que eu lembre - se revela a exata materialização daquilo que disse o E.T., foi... Gabriel. É claro que Slater perdeu para Andino e isso deve ter sido insuportável para ele, aliás como seria para qualquer um. Entretanto, essa “vergonha" se deu na semifinal, e não no round 3.

Ora bolas, por que cargas d’água o maior de todos os tempos escolheu fazer uma análise dessa natureza num campeonato em que o exemplo que confirma a tese é um jovem brasileiro?

Aqui, em terra pátria, foi o lugar escolhido pelo sanguinolento para dizer ao mundo que Gabriel fazia parte do seu grupo. Não daqueles que falam inglês fluentemente, mas daqueles que estão no jogo para vencer. Assim o fez porque olhou, bem antes de todo o resto, que algo novo estava para surgir. Vejam, ele percebeu antes da virada de Fiji... Maldito demônio.

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Jadson André protagonizou um momento insano em Teahupoo ao dispensar o auxílio do jet-ski e remar com tudo em direção à arrebentação. Foto: ASP / Will H-S
 


A remada de Jadson no Tahiti


O que não consigo esquecer da etapa do Tahiti, o que me enche de admiração, é o momento em que Jadson, num mar enorme, depois de cair em uma onda, dispensa o apoio do jet-ski e vira a sua prancha em direção à arrebentação. Por cerca de dois minutos, o camarada crava com força e velocidade as suas mãos na água. O ritmo da remada era acompanhado pela perplexidade dos narradores em língua inglesa, frente à tamanha ousadia. Simplesmente eu não conseguia acreditar no que estava a se passar. Afinal, Jadson não é exatamente um touro. Estatura mediana e relativamente magro. Como era possível naquele mar, no qual muitos integrantes da elite, de modo nem sempre sutil, puxaram o bico de suas pranchas, um surfista que colecionava inúmeros 13º lugares, com fama de merrequeiro e tachado como alguém que não merecia um lugar do WCT fazer aquilo? Como era possível? Que sentimento era esse que o fazia desafiar aquelas ondas de peito aberto e olhar fixo?

Ali, Jadson contrariou a natureza, as vezes em que não conseguiu passar do terceiro round, o olhar cínico de seus críticos… O que eu vi, ainda que essa não fosse a intenção dele, era alguém a dizer com voraz contundência: é meu!, é meu!

Lembrei-me imediatamente de um conto de Rubem Fonseca, O Cobrador, o qual recomendo vivamente a leitura. Trata-se de uma pequena narrativa em que um homem sai pelas ruas de uma cidade grande reivindicando tudo o que acreditava ser seu e que lhe fora sempre negado. Jadson, naqueles dois minutos no Tahiti, entrou definitivamente nos meus livros de História como um dos surfistas mais corajosos e determinados que tive a oportunidade de acompanhar. Do Rio Grande do Norte, de ótimas ondas de 1 metro, para a Ilha Rei, o combustível que animou esse menino de sorriso fácil foi um atributo, nem sempre lembrado como essencial para quem compete entre os grandes: a força de não quebrar jamais. Peterson deve estar orgulhoso de ver parte de seu sangue a correr nas veias de Jadson. Eu, por minha vez, de todo aquele campeonato, lembro, sobretudo, dos dois minutos rumo à arrebentação.

A conversa com Charles em Baleal

Estava em Baleal no exato momento em que Kelly Slater girou como um helicóptero. Ao meu lado, Charles, o pai. Conversávamos sobre Gabriel… Havia lhe contado que viajara para Portugal a fim de ver o menino tornar-se campeão mundial. Lembrávamos de outros momentos da carreira de seu filho, quando ele virou-se para mim e disse: "Por favor, não escreva nada sobre isso antes de acabar a etapa, mas o Gabriel tem me dito frequentemente que vai ganhar esse campeonato, que ele está pronto".

Ouvi incrédulo esse depoimento, seja pela coragem de um menino de 20 anos dizer isso em voz alta, seja porque, à minha frente, estava um pai também perplexo. Como prometido, não escrevi antes de vê-lo consagrar-se campeão mundial.

Baleal era o local escolhido para o treino dos competidores do WCT. Terral, 6 a 8 pés. Todos se concentravam numa faixa de mar de, mais ou menos, 300 metros. Gabriel entrou na praia correndo, sozinho, sem olhar para os lados. Slater desceu de sua caminhonete preta seguido por um séquito. O primeiro foi treinar no pior lugar, sem uma vala desenhada, ao lado de Bruno Santos. O segundo pôs-se em frente ao café, ao lado da entrada do estacionamento. Havia três câmeras voltadas para o sanguinolento. Em frente ao Gabriel, eu e a sua família dividimos espaço com duas emissoras de TV, mais preocupadas em colher depoimentos do que gravar os acontecimentos na arrebentação.

Sem mais, vejo a rotação. Charles estava de costas. O barulho na praia, endurecedor. Descrevo o que vi…. Silêncio. Pensei, cá com meus botões: um demônio, um demônio…

Dez minutos depois, Gabriel e o sanguinolento saem, ao mesmo tempo, da água. Slater é festejado por uma dezena de pessoas que andam ao seu lado. Ele é só sorriso… Gabriel está sério, sangue nos olhos e faca nos dentes. Não fala com ninguém, mas, de repente, interrompe a caminhada. Olha o E.T. fixamente… ele está uns cinquenta metros de distância...

Havia uma seriedade tão grande no menino, um olhar tão intenso… Ali, naquele momento, percebi que estávamos diante de um matador. Ele queria vencer mais do que ninguém, ele queria vencer Slater.

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