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Bolsa de apostas
Por Gustavo Santana em 11/06/15
Faça uma busca rápida com as palavras surfe e apostas, de preferência em inglês, e você verá que nossa modalidade também está nesse meio. Qual seria o impacto para o esporte dos reis havaianos, se o mesmo caiasse nos gosto dos grandes apostadores?
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Fiji Pro 2015, Cloudbreak, Tavarua. Foto: © WSL / Kirstin

 

Depois da vitória de Filipe Toledo no QS em Lower Trestles, Califórnia, pensei comigo mesmo: “Apostaria um milhão de dólares que ele vai ganhar no Rio também”. Apenas pensei, não falei, não escrevi e muito menos apostei. Mas eu aposto que Filipe chegará ao fim do ano brigando pelo título mundial.

Essa aposta soa figurativa, certo? Primeiro, não tenho essa quantia na minha conta e mesmo que tivesse não costumo gastar com apostas. E em segundo lugar, apostas esportivas, com raras exceções, são proibidas no Brasil e normalmente não há maneira legal de fazê-las sem correr o risco de se encrencar judicialmente por um ato ilícito. Bom, se ainda não está legalizado em Terra Brasilis, em muitos países a popular jogatina é permitida e bastante popular.

Não precisamos ir longe. Os países vizinhos Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile têm cassinos como atrativos turísticos. Em alguns deles, além dos convencionais jogos como roleta, jogos de cartas e máquinas eletrônicas caça-níqueis, também é possível realizar apostas. Nas ruas de países europeus e na Austrália, qualquer um que tenha atingido a maioridade legal do país em que estiver pode entrar em uma casa de apostas e depositar sua fezinha em partidas de futebol (inclusive amador) corridas de cavalos, corridas de cachorros e muitos outros esportes. É possível apostar no número de cartões amarelos ou vermelho que um jogo de futebol terá. Pode-se também apostar no número de gols, no vencedor da partida e assim por diante.

A indústria de apostas movimenta bilhões de dólares todo os anos. Estudos referentes ao projeto, PSL 186/2014, que pretende legalizar essa indústria no Brasil, estimam que o potencial desse mercado no Brasil chega a R$ 45 bilhões. As apostas estão no centro das suspeitas de casos de corrupção em esportes em todo mundo, principalmente onde há subjetividade envolvida no critério de julgamento. E é aqui que o surfe entra nessa história.

Faça uma busca rápida com as palavras surfe e apostas, de preferência em inglês, e você verá que nosso esporte também está nesse meio.

A aposta que eu faria em Filipe Toledo não seria exclusividade minha. No primeiro site do resultado da busca sugerida, há um link para apostas no próximo evento do circuito mundial de surfe. O problema é que o critério de julgamento do surfe competição é altamente subjetivo, muito mais do que o futebol, basquete ou ginástica olímpica. Se no atletismo quem cruzar a linha de chegada em menos tempo vence a prova, no surfe não é bem assim. E é aí que mora o perigo.

Para simplificar e dar mais objetividade ao critério de julgamento no surfe profissional, a WSL, resume o critério de julgamento em cinco fatores a serem considerados em cada onda. São eles: “Comprometimento e grau de dificuldade; Manobras inovadoras e progressivas; Combinação de manobras expressivas; Variedade de manobras; Velocidade, potência e fluidez”. Cinco juízes internacionais e um “head judge” (chefe dos juízes) têm a incumbência de dar uma nota de 0,1 a 10,0, com base no critério exposto, para cada onda surfada durante uma bateria. Cada um dos cinco fatores que compõem o critério de julgamento pode ter maior ou menor peso e relevância dependendo do tipo de onda e condições de cada etapa e cada dia do evento. Para ilustrar com exemplos extremos, o critério valorizado para o julgamento de Teahupoo gigante será bem diferente do valorizado em Trestles pequeno. O fato é que se você acompanha fielmente o CT e as competições, é possível entender com alguma clareza como essas combinações funcionam. Mas não haverá um só campeonato ao decorrer do ano, seja amador ou profissional, onde as decisões dos juízes ficarão longe das polêmicas.

Todo mundo tem um preço diz o dito popular. Muitos se vendem, é verdade. Senadores, deputados, vereadores, juízes, corregedores e dirigentes esportivos estampam os jornais quase que diariamente com os tristes exemplos de corrupção do poder público e nos esportes. Quanto valeria um head judge? Entre outras funções, a maior autoridade entre os árbitros de surfe, enquadra a onda entre fraca, regular, normal, boa e excelente numa classificação que varia de dois em dois pontos. Por ser o mais experiente entre os árbitros, lhe é outorgado o poder de influenciar na correção da nota de um juiz que possa equivocadamente ter elevado ou achatado em demasia uma nota de um surfista. Com uma descrição objetiva da onda surfada, usando o critério de julgamento e a comparação entre ondas surfadas da mesma bateria, ele tenta mostrar por que determinado juiz deve corrigir uma nota que supostamente destoa das notas dos demais juízes.

Suponha agora que uma grande casa de apostas resolva oferecer uma grana preta para o head judge evitar alguns resultados improváveis, que pagariam uma pequena fortuna aos acertadores das apostas. E se esse profissional é um dos que se vendem?

Você concorda que é muito poder para uma única pessoa que pode determinar um vencedor ou um perdedor? Não quero - e nenho tenho porquê - fazer acusações infundadas sobre a índole de juízes profissionais nem ferir a integridade da WSL ou qualquer outra entidade de surfe profissional. Longe disso. Só estou apontando fragilidades que podem detonar a tendência de crescimento do nosso esporte e a reputação frente a audiência e investidores.


Há outras fragilidades questionáveis que não seriam difíceis de corrigir. Durante os eventos, embora os juízes não tenham contato visual entre si, todos sabem que nota cada surfista precisa para virar a bateria, já que o locutor do evento mantém todos bem informados em alto e bom tom em tempo real. Você acredita que isso ajuda na imparcialidade indispensável e até mesmo exigida por árbitros? Diga você mesmo. Mas um painel na praia, fora do alcance visual do palanque dos juízes, que mostrassem aos surfistas e público presente as notas e quanto cada surfista precisa para reverter a bateria a seu favor, resolveria facilmente essa questão e eliminaria essa polêmica. O fato é que não há motivo para os juízes saberem as notas que cada surfista precisa.

Continue comigo. A vida dos juízes em um campeonato não é fácil. Nem a de novos adeptos desse esporte quando tentam entender as regras do jogo. Uma nota 10 em uma bateria não necessariamente será nota 10 na bateria subsequente. Em uma bateria, as notas são dadas por comparação. Assim, a primeira nota de cada bateria é fundamental e servirá de parâmetro para as demais notas da mesma bateria. Até aí, tudo bem. Mas, e se um 10 for dado nos minutos iniciais da bateria e logo em seguida alguém surfar uma onda melhor? Que nota será dada para a onda melhor?

Isso quase aconteceu no Oi Rio Pro de 2015. Filipe Toledo foi brindado com a nota máxima ainda no início da bateria final contra Bede Durbidge e por pouco não complica os juízes, já que vinha demonstrando que podia surfar ainda melhor. Além disso, manter-se coerente ao critério não é tarefa fácil aos mortais juízes. Adriano de Souza sempre tira da cartola um floater numa craca despencando no seco. Se olharmos para o critério, floater não é uma manobra inovadora e sempre fica o debate se há comprometimento ou não em uma manobra tão tradicional, ainda que plástica, como essa. Mas, e se a onda tiver quase dois metros em uma fechadeira da Barra da Tijuca? Há comprometimento ou não? Valeria mais do que uma rabetada jogando muita água pra cima? É difícil definir critérios precisos que funcionem sempre. Uma manobra muito inovadora e progressiva em uma onda intermediária vale mais ou menos do que uma sequência de manobras conservadoras com variação entre elas em uma onda da série? Variação faz parte do critério de julgamento, lembram? Quanto vale a diferença?

Por outro lado, as transmissões ao vivo não permitem mais que erros grosseiros sejam relevados e jogam a favor da transparência. Nem sempre foi assim. A euforia verde-amarela pelos recentes bons resultados no esporte dos deuses talvez esconda antigos casos de desinteresse por parte de juízes, patrocinadores do tour e da entidade em ter brasileiros vencendo. Os casos são incontáveis, mas pararam de ser descarados desde o aumento de visibilidade que o esporte ganhou em transmissões ao vivo. 

Surfar bem também ajuda a não dar margem para erro. E isso os brasileiros aprenderam bem. Com o nível, ou melhor, o desnível, que os brasileiros vêm surfando em comparação ao demais mortais, fica difícil achar brecha para injustiças. Andy Irons fez o mesmo para quebrar a hegemonia de Kelly Slater. Mick Fanning e Joel Parkinson também nos seus títulos mundiais vencidos sem margem para dúvidas. Mas nem sempre será assim. Quando houver uma bateria muito apertada, para quem será que os juízes darão o resultado, já que sabem a nota que cada surfista precisa para ganhar ou perder a batalha? Depende. Se o Julian Wilson estiver na bateria... bom, melhor não entrar nesse assunto. A síndrome de cachorro vira-lata já não faz mais parte da nossa geração vitoriosa. Mas seria bom alguns conceitos relacionados ao julgamento serem revistos e a discussão ganhar repercussão.

Os casos de injustiças no julgamento de baterias não são um complô contra brasileiros e envolvem até mesmo grandes nomes do esporte. Kelly Slater e Andy Irons travaram uma batalha épica pelo título mundial de 2005. Seria o quarto título seguido de Andy Irons ou o sétimo de Kelly Slater. Antes da aparição do havaiano no tour, a hegemonia de Slater parecia intocável. Mas Andy interrompeu o ciclo com três títulos mundiais seguidos que atormentaram os fãs do circuito mundial, acostumados com o careca no topo. Já estava perdendo a graça ver nosso herói apanhar tanto para o maior anti-herói da história do surfe competição. Será que os juízes são imunes contra a preferência por atletas? Eis que na bateria final da etapa de Jeffrey’s Bay, na África do Sul os juízes deram uma mãozinha ao maior nome do esporte dando um 9,5 em uma onda que Slater precisava de 9,3. Kelly caiu na última manobra, mas venceu a bateria e o campeonato. Anos mais tarde, no filme A Fly in the Champagne, KS concordou publicamente que a nota foi mais alta do que deveria ter sido, mas também achou que os juízes compensaram a sua primeira nota que deveria ter sido mais alta.   

Andy venceu a etapa seguinte, no Japão, em outra final contra Slater. Mas no fim do ano KS interrompia a sequência de títulos de Andy Irons que nunca mais foi campeão mundial. Teria sido assim se os juízes tivessem sido corretos com a nota de Slater na final de Jeffreys? E se a decisão pelo caneco do ano tivesse ido para Pipeline novamente? Quanto vale uma bateria? Talvez a da final de Jeffreys tenha custado o título mundial de AI. E se pelo menos os juízes não soubessem que nota Kelly precisava? A nota teria sido acima de 9,3?

É preciso parar de apostar em seres incorruptíveis e imparciais e criar mecanismos que reduzam o risco de deslealdades nos resultados esportivos, especialmente o surfe. Transparência e confiança devem acompanhar as intenções da dona do circuito mundial, a WSL, e de todas as entidades comprometidas com o profissionalismo, a seriedade e a reputação do surfe frente a espectadores e investidores. Ainda que possamos e devamos nos espelhar no golfe, no tênis, e até mesmo no futebol para traçar estratégias de crescimento, não queremos os cartolas do surfe nas páginas policiais como ocorre hoje com a até pouco tempo intocável FIFA.

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