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Surfe, riso e lágrimas
Por Tulio Brandão em 20/03/17
Tulio Brandão analisa a etapa de abertura do Championship Tour.
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Owen Wright retorna à elite com brilhante campanha em Snapper. Foto: © WSL / Cestari.

 

Charles Chaplin acreditava no poder do riso e das lágrimas. Enquanto Owen Wright chorava copiosamente e, entre soluços, distribuía sorrisos e abraços sinceros em todos, inclusive seus adversários diretos, que torceram para que ele saísse de Snapper Rocks com a vitória, o surfe, sem notar, inspirava-se. Assim, sem perceber, aquela história de vida enchia todos nós de esperança.

Faz pouco tempo, muito pouco tempo, Owen não sabia se voltaria a surfar. Estava confuso, perdido e desorientado, segundo informado, por uma grave concussão. Semanas atrás, os médicos o liberaram para a temporada de 2017, mas, ainda assim, havia uma dúvida. Estaria ele tecnicamente recuperado?

O caminho do gigante australiano na Gold Coast, concluído com uma inapelável vitória na final contra o amigo Matt Wilkinson, é uma das mais ricas histórias de recuperação do surfe – só consigo comparar à volta de Bethany Hamilton, que ano passado venceu Carissa Moore e Tyler Wright num mar clássico de Fiji. Desde já espero um filme sobre a história, que precisa ser bem contada – em detalhes até agora não revelados.

Para além da grande história, as singelas cenas de redenção dos Wright marcaram as retinas do surfe: o abraço emocionado de Owen na esposa e no filho, o choro compulsivo da irmã Tyler abraçada a Owen, a emoção dos pais, o abraço sincero dos adversários que ele eliminou a caminho do título. Isso sem falar, claro, no mais polido surfe de backside do mundo, que o australiano reapresentou como se jamais o tivesse perdido de vista. Como se ele sempre estivesse ali.

Chaplin estava certo. As lágrimas, os risos (e, claro, a vitória) empoderaram o surfe.

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À exceção do último dia, Gabriel Medina foi o melhor surfista do evento. Foto: © WSL / Cestari.

 
Snapper serviu também para revelar o potencial da temporada. Confirmou-se o peso da presença de seis campeões mundiais na disputa – Kelly Slater, Mick Fanning, Joel Parkinson, Gabriel Medina, Adriano de Souza e John John Florence. São muitos querendo vencer de novo e outros tantos querendo carimbar as velhas faixas.

Não lembro de um ano com tantos coroados no páreo – numa pesquisa rápida, até os anos 90, encontrei muitos anos com cinco atletas, nenhum ano com seis.

A volta de Matt Wilkinson, que, no último dia era o surfista mais encaixado às condições instáveis do pico, é um alento e tanto. Muita gente já tinha enterrado o australiano de Copacabana, atribuindo suas conquistas de 2016 a um lampejo. Pois o cara eliminou o campeão do mundo John John, que tinha uma nota  9,5, mostrando rara maturidade para virar a bateria na última onda. Seu backside afiado faz estragos, e, onde houver uma direita, haverá chance de vitória para ele.

John John e Gabriel, dois inevitáveis candidatos ao título de 2017, construíram um resultado muito útil para a temporada. Estão na disputa, na cola, vivos, prontos para dar o bote na liderança nas próximas etapas do ano.

JJ provou estar com os nervos em dia e concentrado, ao ajustar seu surfe às condições de Snapper e errar pouco. Fez linhas limpas, manobras impactantes e bem desenhadas, utilizou o repertório de aéreos e de tubos, fez de tudo um pouco. Poderia ter vencido a prova, se não errasse na construção da segunda nota da semifinal.

À exceção do último dia, Gabriel foi o melhor surfista do evento. Vertical, potente, com transições limpas e suaves, ele acumulava notas altas em praticamente todas as baterias. No domingo decisivo, no entanto, pareceu não encontrar o melhor caminho, talvez pela dificuldade de adaptar seu joelho contundido à irregularidade do mar. Venceu Slater na última onda – passando um aperto que a meu ver não ocorreria se ele estivesse na ponta dos cascos – e parou, de forma justa, na disputa com Owen.

Mick Fanning, outra aposta para o ano, pareceu um pouco fora de sintonia de competição. Seu surfe continua magnífico, mas um pouco menos afiado que em seu último ano na disputa (2015). Foi vítima do seed e perdeu de maneira precoce para o campeão do evento, no round 3. Estou curioso para vê-lo no resto do ano.

Connor O’Leary, estreante australiano filho de japoneses, surpreendeu com um quinto lugar. Mas sigo apostando mais, entre os rookies australianos, no garoto de North Stradbroke, Ethan Ewing. Rápido, afiado e moderno, o moleque parece encarnar a evolução natural da clássica escola australiana. Perdeu para ele mesmo, esmurrando a prancha, num precoce round 2. Com a cabeça no lugar, vai longe.

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Italo Ferreira fez o primeiro dez da temporada com um aéreo desapegado de convenções e um retorno à onda controlando a prancha numa espuma tormentosa, além de outras boas apresentações. Foto: © WSL / Cestari.

 
Entre os brasileiros, Italo Ferreira e Adriano de Souza estrearam bem.

Italo fez o primeiro dez da temporada do WCT com um aéreo desapegado de convenções e um retorno à onda controlando a prancha numa espuma tormentosa, além de outras boas apresentações. Seu surfe nascido em Baía Formosa naturalmente se encaixa em Snapper. O potiguar, que parou nas quartas, ainda precisa polir alguns movimentos, principalmente na transição entre manobras, mas está no caminho certo para a primeira vitória em etapas da elite.  

Adriano me pareceu extremamente afiado, com potencial para ir bem mais longe. Parou numa disputa com Joel Parkinson, local que tem um surfe mais bonito do pico. Esperem um Adriano forte nas etapas restantes da perna australiana.  

Agora é a vez de Margaret River. Se The Box quebrar, devemos ver, como sempre, a ditadura dos regulares. A não ser que Owen, que em 2015 fez uma nota 10 naquele tubo quadrado, ou outro goofy mais abusado, como o próprio Gabriel ou Wilko, resolvam levar ainda mais a sério a missão de manter fora do topo os surfistas que tem como base a perna direita, mesmo na área deles. Snapper já foi dominada.  

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