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Por Tulio Brandão em 17/10/17
Tulio Brandão analisa a vitória de Gabriel Medina no Quiksilver Pro France.
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Gabriel Medina parece ter se viciado no sofisticado sabor da vitória na charmosa costa francesa. Foto: WSL / Poullenot.

 

Deve ser muito bom triunfar na França – e não me refiro aos bons vinhos, ao alcance dos que gostam, na comemoração da vitória. Que o diga Gabriel Medina, que parece ter se viciado no sofisticado sabor da vitória na charmosa costa francesa.

O brilho do garoto brasileiro não é fugaz, ilegítimo. Em sete provas disputadas lá desde que chegou à elite, em 2011, foram três vitórias e dois vices (em que ele era o favorito absoluto). Isso sem falar no respeitável currículo de conquistas em provas dos tempos de júnior e na divisão de acesso – a mais emblemática delas, com duas notas 10 perfeitas, numa final de King of Groms disputada com Caio Ibelli.

A maioria conhece o histórico. Mas a redundância serve para entendermos melhor por que Gabriel sempre será o favorito na França, ainda que não tenha sido o melhor surfista da prova de 2017. John John Florence cansou de produzir médias incríveis, mas quando deu de cara com o brasileiro falhou. Como ainda não inventaram uma fórmula de pontos corridos no surfe – o que seria trágico – o maior pontuador ficou pelo caminho. Surfe competitivo se mede pelo confronto. Oxalá continue assim.

Decidi subverter um pouco o texto e listar uma pá de pequenas histórias que realmente me interessaram durante a janela de prova de Hossegor. Vamos lá:

Ver a fúria competitiva novamente nos olhos de Gabriel Medina. Em forma técnica e tática, o campeão mundial de 2014 é indispensável ao circuito mundial. Aqui vão algumas razões: ele força seus adversários (e o próprio surfe) à evolução, produz momentos mágicos (que valeriam o ingresso, se um dia a transmissão for paga) e se coloca na condição de protagonista, de referência – gostem ou não gostem dele.

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John John Florence cansou de produzir médias incríveis, mas falhou quando deu de cara com o brasileiro. Foto: © WSL / Masurel.

 

Gabriel Medina x John John Florence. Isso interessa, sempre. A WSL deveria encontrar, nos próximos anos, alguma fórmula que produzisse com mais frequência encontros especiais como este. Há muitas rivalidades interessantes no miolo da elite, mas o confronto direto da turma que lidera o futuro do esporte é bem mais fascinante. Para além disso, Gabriel x JJ é um duelo simbólico: estão em oposição, na disputa, o surfista cool x o surfista competitivo, a escola havaiana x a escola brasileira, o goofy x o regular, dois campeões mundiais de culturas distintas, etc. Já nasceu um clássico.

 
Um momento mágico. No basquete, o cara com capacidade para acertar a cesta no minuto final é chamado de “clutch”. No surfe, há uma turma capaz de, sob pressão, encontrar uma “cesta de três” inimaginável. Gabriel, que está nessa pequena lista, enfrentava o dono do evento, JJ, que produziu notas acima de nove em série, quando tirou da cartola um sushi roll (há quem diga que foi outra variação), com volta ainda mais incrível, para oprimir definitivamente o havaiano. A volta da manobra – vale rever muitas vezes como ele retoma o controle da prancha - entra desde já para a coleção de milagres produzidos na elite do esporte.

A volta de Seabass ao pódio. Sebastian Zietz, o “humble guy” do Kauai, está na minha lista restrita de surfistas favoritos que costumam circular pelo meio da tabela. Desenha arcos potentes com bordas encravadas na água, passeia pelos tubos com conforto incomum, ajusta-se a condições distintas de mar e ainda é gente boa. Sempre que estiver nas cabeças, o surfe estará em boas mãos.

Andino na sombra. Kolohe, o titular de San Clemente, fez uma prova sem brilho, passando por duas repescagens, mas mostrou que é possível pontuar forte para a temporada sem se destacar especialmente numa determinada onda.

Pupo ligou sob pressão. Não sei se é o risco de rebaixamento, a pressão da falta de patrocinador de bico ou, ainda, se não é nada disso. O fato é que Miguel fez na França o que ainda não tinha feito. Se repetisse a performance durante toda a temporada, estaria brigando entre os dez, ou melhor. Isso foi dito, mas deve ser repetido: não falta surfe, nunca faltou. Pena que, no caminho, complicou as chances de título mundial de Filipe Toledo, que surfou contundido, e Adriano de Souza. Ossos do ofício.

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Se repetisse a performance durante toda a temporada, Miguel Pupo estaria brigando entre os dez, ou melhor. Foto: © WSL / Masurel.

 
Caio de pé. Ibelli surfou bem na França. O ponto alto foi a vitória sobre a estrela portuguesa em ascensão no tour, Frederico Morais, em onda europeia. Fez pontos importantes para, no fim do ano, se manter em 2018 pelo ranking do CT.

Tropeço de Jordy. Sobre o sul-africano, só uma coisa a dizer: falhou na hora errada.

Portugal para os fortes. O resultado da França deixou uma turma a uma distância grande do título. Adriano, Filipe, Julian Wilson e Matt Wilkinson perderam muito precocemente. Owen Wright andou um pouco mais, mas um nono na França é pouco para quem quer o caneco. Mas não se enganem. Essa galera vai lutar muito para chegar ao Havaí com uma janelinha aberta de título mundial – estar em Pipe na condição de candidato, ainda que com chances remotas, vale muito, em todos os sentidos. O patrocinador espera por isso.

Sprint final? Gabriel ganhou potência justamente na reta final, o que é um perigo para os adversários, mas também está a uma distância enorme para o pelotão da frente, com JJ e Jordy. Ainda assim, surpreendentemente, depois de um ano irregular, é o único que pode tirar a liderança dos dois surfistas em Portugal. A combinação é bem improvável, é certo, mas não impossível: Gabriel precisa vencer e torcer para o havaiano não passar da terceira fase e o sul-africano não chegar às quartas-de-final.

Façam suas apostas. 

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