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Que soe a sirene
Por Tulio Brandão em 01/03/17
Tulio Brandão faz suas apostas para o Championship Tour.
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John John Florence defende o título da temporada. Foto: © WSL / Kirstin.

 

A folia de momo acabou, agora é para valer. Depois das férias – que alguns usaram para treinar, outros para descansar – é hora de calibrar o surfe e os prognósticos para a etapa de abertura do ano, cuja janela começa no próximo dia 14.

A temporada de 2017 ainda não começou, mas promete ser inesquecível. Esta é, talvez, a única previsão realmente segura de ser feita antes de soar a sirene da primeira bateria em Snapper Rocks, por algumas razões:

- Os dois surfistas que lideram notadamente a nova geração, John John Florence e Gabriel Medina, iniciarão a disputa com patente de campeões mundiais, associada à maturidade adquirida nas últimas temporadas e ao acirramento da rivalidade.

- Veterano? Que nada. Mick Fanning, o titular absoluto da escola de surfe australiana, que ensina linhas bem executadas, manobras firmes e transições limpas, volta ao jogo. Em 2016, correu cinco etapas: ganhou uma, fez um terceiro e um quinto. Ficou à frente, por exemplo, do incensado americano Conner Coffin. É maduro, sereno e dono de uma consciência superior do que precisa fazer para alcançar um título mundial. De minha perspectiva, em condições normais, caso ninguém apresente surpresa em relação ao que aconteceu em 2016, é o cara a ser batido na corrida pelo caneco.

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Gabriel Medina também disputa o circuito com a patente de campeão mundial e a maturidade adquirida nas últimas temporadas. Foto: © WSL / Cestari.

 
- O respeitável “sprint” final de Jordy Smith no terço final da temporada de 2016 – nas últimas quatro provas, fez um primeiro, um terceiro e um quinto lugares – leva mesmo o mais cético crítico a desconfiar que ele possa ter, enfim, amadurecido como competidor. Em parte considerável das ondas do circuito mundial, o sul-africano está na lista dos melhores surfistas. Poderia, na letra fria do critério, já ter ocupado o topo do mundo: é dono do mais poderoso carving, um verdadeiro enterra-borda; tem linha limpa, com transições perfeitas; um power natural impactante, usa bem o seu peso; domina o cardápio de manobras progressivas; e, por último, sabe surfar em quase todas as condições do tour. Talvez ainda lhe falte contundência em esquerdas tubulares – em ondas como Teahupoo e Fiji, por exemplo – mas nada que lhe impeça de fazer um resultado competitivo nessas arenas para disputar o título do ano.

- A temporada marca a volta do soldado mais temido do tour à missão de vitórias. Depois do título de 2015, Adriano pegou, como tantos outros, a febre do pós-título, cujo principal sintoma é um relaxamento natural depois dos anos de tensão. Gabriel, Kelly Slater e tantos outros passaram por isso. Em 2017, depois de gastar praticamente as férias inteiras em treinos intensos no Havaí (com direito a um vice no QS de Pipe), não há dúvida de que a velha faca voltará a seus dentes. Tem como arma a perna australiana, que domina inteiramente – com vitórias, uma em Bells e outra em Margaret, e finais em Snapper. Se sair dali forte, briga firme pelo bi.

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Mick Fanning está de volta ao jogo. Foto: © WSL / Cestari.

 
- Filipe Toledo vem ampliando silenciosamente seus atributos. O carving ganhou poder, as manobras aéreas seguem sendo aprimoradas e a transição entre as manobras está cada vez mais limpa. Ainda precisa mostrar valor em esquerdas tubulares, mas tem talento para dispensar resultados nessas provas e ainda sim brigar pelo título mundial, tamanho é seu domínio de outras arenas. Tenho dúvida apenas se a WSL dará um título mundial a um surfista que ainda não brilhou nas joias do circuito mundial. Lembrem-se de Adriano, que foi campeão com um título em Pipe, depois de anos de resultados medíocres em arenas mais agudas. No cardápio dele, só havia um prato: treino. Filipe larga na temporada com uma ótima vantagem, a de ser o favorito em condições normais em Snapper Rocks, etapa de abertura.

- Enquanto o australiano Mick ainda briga na ponta em ondas de alta performance, os campeões Kelly Slater e Joel Parkinson (este com a mesma idade do compatriota) sofrem mais com a dinâmica evolução do esporte. Ambos deram declarações recentes de que 2017 seria um ano especial (o americano chegou a dizer que seria sua última temporada, depois desmentiu a notícia). Em outras palavras, querem dar um último tiro certeiro, antes que a munição acabe de vez. Joel tem a seu lado a mais bela linha da elite, embora sofra em ondas afeitas a movimentos progressivos. Kelly tem a seu lado a história, a clara supremacia (ainda reinante) em ondas tubulares, mas está um pouco atrás quando é preciso ter explosão e modernidade. A temporada será definitiva para ver como ambos lidam com enormes virtudes e pequenos defeitos.    

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Filipe Toledo vem ampliando silenciosamente seus atributos. Foto: Bruno Sergole.

 
- O avanço dos ex-coadjuvantes foi um fenômeno consolidado em 2016. Wilko, eterno brigador da ponta debaixo da tabela, venceu duas, fez outra final, liderou boa parte do ano e disputou o título. Sebastien Zietz também carimbou seu caderno com uma vitória. Keanu Asing pegou seu naco da temporada, ao surpreender Gabriel na França. E Michel Bourez, embora não seja exatamente estreante no degrau mais alto do pódio, deixou novamente a rabeira das tabelas para dominar Backdoor na última etapa do ano. Ou seja, quase metade das provas do ano passado foram vencidas por zebras. Agora, ex-zebras. Isso sem falar em outros finalistas, como Conner Coffin, Kanoa Igarashi e Jack Freestone. A janela está definitivamente aberta aos coadjuvantes.

- Italo Ferreira parece, pelo menos nos vídeos da pré-temporada, endiabrado. Se transformar a fúria com os maus resultados de boa parte da temporada passada em foco e determinação, pode fazer um estrago em 2017. Precisa tirar o selo da primeira vitória, antes de sonhar com um título mundial.

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Adriano de Souza tem como arma a perna australiana, que domina inteiramente. Foto: Lucas Palma / @skids.com.br.

 
- Há estreantes interessantes na elite de 2017. Tenho especial curiosidade para ver como o surfe moderno e potente dos australianos Ethan Ewing e Connor O’Leary, campeão e vice da divisão de acesso ano passado, serão vistos no CT. Não me surpreenderia se um deles vencesse uma prova já em sua primeira temporada. Ethan, natural de Noth Stradbroke Island, é um regular inventivo, power e surpreendente. Connor traz de volta o melhor da linha goofy australiana à elite. Talvez a chegada dos dois seja a mais contundente reação australiana desde o avanço da nova geração, sobretudo de brasileiros, no circuito mundial. A dupla é a aposta aussie para recuperar o domínio do jogo num futuro próximo.

- Do lado brasileiro, temos uma novidade: Ian Gouveia. A estreia do filho do Fabinho tem uma importância histórica para o Brasil, que coloca pela primeira vez um filho de top do circuito mundial na elite. É um símbolo claro do amadurecimento do surfe como um esporte no país. Mas Ian tem valor para além disso, é claro. Possui um surfe moderno e lida muito bem com tubos. As etapas iniciais serão importantes para determinar como o surfe do garoto vai se encaixar na elite. Fica a torcida.

Se lembrar de mais algum ponto, contribua! Façam suas apostas.

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