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Pequena grande surpresa
Por Tulio Brandão em 14/10/16
Tulio Brandão analisa a surpreendente vitória de Keanu Asing no Quiksilver Pro France.
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Até a glória em Hossegor, um 13o e um nono lugares eram os melhores resultados de Keanu Asing num magro 2016. Foto: © WSL / Cestari.

 

Antes da primeira sirene, ninguém apostaria um vintém numa vitória de Keanu Asing na França. “Quem?”, perguntaria um espectador de surfe menos atento.

Até a glória em Hossegor, um 13o e um nono lugares eram os melhores resultados do havaiano num magro 2016. Keanu estava ficando perigosamente acostumado a cair na vala do round 2 quando aconteceu o inesperado na arena francesa.

Ele vinha tão nas rabeiras do ranking que, após vencer a primeira prova de sua vida na elite, pulou apenas para a modesta 21a posição. Deve ter que defender seu posto até a última prova do ano para não cair para a segunda divisão.

Dito isso, foi absolutamente brilhante e justa a vitória do pequeno havaiano. Um metro e sessenta e cinco de altura, centro de gravidade baixo, atarracado, base neutra, ele foi claramente dominante quando Hossegor ofereceu uma valinha de esquerda com ondas cheias. Encaixou-se, surfou muito de backside, derrotou as duas maiores estrelas do esporte na atualidade em sequência.  

Está aí uma das mágicas do esporte: a possibilidade de um “match” entre a onda e o surfista, ainda que este não esteja entre os aparentes candidatos a uma vitória. O surfe tem sido capaz de produzir campeões inesperados e legítimos, basta ver a sucessão de surpresas em 2016 – Wilko (2x), Seabass e, agora, Keanu.

A sensação é a de que, um dia, qualquer um pode vencer. Basta estar lá, na elite, no dia certo. Isso faz bem ao esporte, especialmente aos atletas que acompanham o circo.

Keanu tem algumas qualidades, como o surfe de backside em determinadas valas e um jogo moderno, e outras lacunas, como a abordagem em ondas mais agudas, que ganham destaque pelo fato de ser ele um surfista do arquipélago havaiano.

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Keanu tem algumas qualidades, como o surfe de backside em determinadas valas e um jogo moderno, e outras lacunas, como a abordagem em ondas mais agudas, que ganham destaque pelo fato de ser ele um surfista do arquipélago havaiano. Foto: WSL / Poullenot.

 

Na França, quando vi o mar do dia final, confesso que cheguei a pensar em sua vitória, contra todos os prognósticos, quase à brinca mesmo, por ser algo aparentemente tão improvável. Lembrei-me, então, que ele não está na elite à toa – disputou consistentemente títulos nas categorias de base, com seus contemporâneos.

Gabriel Medina, o vice na França, sabe disso. Perdeu para o havaiano em 2009, na final do ISA Junior, na categoria sub 16, nas ondas de Salinas, no Equador. Deu Keanu contra um freak que, dois anos mais tarde, arrombaria as portas da elite do surfe.

Para o brasileiro, perder na França obviamente foi amargo. Muita gente falou de erro de estratégia de Gabriel na final, de falha no posicionamento, mas vi um Keanu dominante desde a primeira bateria do dia, encaixado numa onda que ninguém conseguia surfar. Se o mar tivesse com um pouco mais de pulso, Gabriel possivelmente venceria. John John Florence, o derrotado na semifinal, também teria sua chance.


Ainda que não tenha encostado na disputa como gostaria, para Gabriel, reduzir a vantagem do líder do ranking, John John, é uma grande notícia. Caso se aproxime ainda mais em Portugal – e fique com a desvantagem de apenas uma bateria em relação ao havaiano – terá o cenário ideal para chegar à Pipeline forte: sem a pressão de ser líder, dependendo apenas de si para ser campeão. Bastaria chegar na frente.

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Para Gabriel Medina, perder na França obviamente foi amargo. Foto: WSL / Poullenot.

 

John John, por sua vez, mostrou na França que acordou definitivamente da letargia de anos anteriores, quando sucumbia à pressão de ser o eterno favorito. Conseguiu impor um ritmo de líder, com notas altas em quase todas as baterias. Só vacilou em ondas pequenas e cheias, onde normalmente não consegue mesmo ser o melhor.

Poderia ter perdido para Adriano de Souza no round 5, assim como Gabriel Medina poderia ter perdido para Leo Fioravanti no round 3, se os juízes assim quisessem. Ambos deixaram portas abertas para a derrota, que acabou não acontecendo.

Filipinho Toledo, dono da melhor apresentação do evento, sucumbiu nas quartas-de-final para John John, depois de vencê-lo na melhor bateria do ano, no round 4. Seu aéreo de backside entrou para a antologia do esporte. Nas quartas, no entanto, não surfou com o mesmo desprendimento. Pareceu fora de sintonia com a disputa.

Em Portugal, teremos o próprio Filipinho defendendo o título, John John e Gabriel com a faca nos dentes pela vantagem no Havaí e todos os demais surfistas, inclusive azarões improváveis como Keanu, confiantes de que podem chegar à vitória.

Keanu venceu na França, mas a melhor notícia dos últimos dias veio da Austrália. O craque Owen Wright, irmão da recém-coroada campeã mundial Tyler, volta à elite em 2017, depois de encarar grave concussão cerebral. Com ele, volta também o bom Bede Durbidge, após longa recuperação de fratura de bacia em Pipeline. A presença de Owen eleva o nível da competição – força outros atletas a polirem e refinarem seu surfe para alcançá-lo. Fico na torcida para que chegue plenamente recuperado a Snapper Rocks, na abertura da próxima temporada.

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