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Oito minutos
Por Tulio Brandão em 15/08/17
Tulio Brandão analisa o incrível duelo entre Gabriel Medina e Julian Wilson na final da etapa taitiana do Tour.
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Gabriel Medina esteve mágico durante toda a curtíssima etapa do Taiti, mas sofreu uma das mais espetaculares viradas da história recente da elite do surfe. Foto: © WSL / Cestari.

 

Em oito minutos, quase como no slogan de uma rádio carioca, tudo pode mudar. Nascem, neste breve intervalo, 1440 pessoas. Morrem outras 816. Governos caem, guerras começam e acabam. E, claro, vitórias dadas como certas escapam das mãos.


Gabriel Medina esteve mágico durante toda a curtíssima etapa do Taiti, mas sofreu uma das mais espetaculares viradas da história recente da elite do surfe, num dos palcos em que é reconhecidamente um surfista dominante.

Julian Wilson, o campeão e maquiavélico arquiteto da espetacular reação, vinha surfando muito durante todo o evento, mas foi decisivo mesmo nos oito minutos finais da derradeira bateria de Teahupoo. Mais que decisivo, foi incisivo. Magistral.

O cenário parecia definido: o australiano estava em combinação, sem prioridade, diante do surfista com melhor retrospecto no pico nos últimos anos, conhecido por ser um competidor implacável, que não costuma dar fôlego aos adversários, num mar com pulsos irregulares de série.

Na transmissão online, os narradores, aparentemente convencidos de que a vitória de Gabriel já estava selada, comentavam o “recap” da bateria.

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Julian Wilson, o campeão e maquiavélico arquiteto da espetacular reação, vinha surfando muito durante todo o evento, mas foi decisivo mesmo nos oito minutos finais da derradeira bateria de Teahupoo. Foto: © WSL / Cestari.

 
De repente, uma série aponta no horizonte. A primeira vem menor, tímida, e Gabriel rema. Ele tenta o tubo e fica pelo caminho, enroscado na espuma. A potência do Taiti o arrasta metros a fio sem piedade.  

Na segunda onda da série, Julian dropa no negativo, a la John John Florence, e passeia por dentro do salão. Ao sair, liso e limpo, percebe o brasileiro ainda preso na turbulência e volta para a prioridade, com o jogo inacreditavelmente nas mãos.

Na série seguinte, a ordem de qualidade das séries se inverte. Julian vem na primeira, cilíndrica, e resta a Gabriel a segunda, com o tubo esfarelado. Frio e brilhante, o australiano desenha novamente a linha perfeita dentro do tubo e sai absolutamente consciente de que tinha feito a pontuação necessária para a virada.  

Em seis minutos, o australiano saía da combinação para a liderança. Nos dois minutos restantes, com Gabriel na prioridade, claro, o mar sossegou de vez. O brasileiro ainda tentou achar algo em ondas menores, mas o destino, essa entidade invisível contra quem é muito difícil lutar, já estava selado. Vitória de Julian, mais uma.

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A final do Taiti é a quarta entre os dois surfistas desde que chegaram à elite. Fora a da França, em 2011, primeira temporada de ambos os surfistas, Julian venceu as outras três (Portugal/2012, Havaí/2014 e Taiti/2017), o que daria a Gabriel, teoricamente, um status de freguês. Foto: © WSL / Cestari.

 
A final do Taiti é a quarta entre os dois surfistas desde que chegaram à elite. Fora a da França, em 2011, primeira temporada de ambos os surfistas, Julian venceu as outras três (Portugal/2012, Havaí/2014 e Taiti/2017), o que daria a Gabriel, teoricamente, um status de freguês. De todas as vitórias do aussie, a do Taiti talvez tenha sido a única que não será, jamais, objeto de questionamento. A final de Supertubos foi avaliada por muita gente como um erro histórico de julgamento, e a de Pipeline dividiu opiniões. Eu, particularmente, acho que, no histórico dia do título mundial de Gabriel, Julian venceu, pelo jeito de surfar e pela qualidade das ondas escolhidas.

Quanto mais vezes os dois estiverem juntos em finais, melhor para o surfe como espetáculo esportivo. Quando estão na plenitude da forma técnica e competitiva, ambos são capazes de grandes momentos de rivalidade. A final de Teahupoo de dias atrás lembrou a emblemática disputa entre Kelly Slater e Andy Irons, em Pipeline, nos idos de 2006, quando o havaiano também saiu de uma combinação improvável.

A rivalidade é tão acentuada que volta e meia sai dos trilhos, como no início da bateria final. Numa troca agressiva de remadas, Gabriel levou a melhor. Julian, em desvantagem na disputa, perdeu o controle. Poderia ter tomado uma interferência se o brasileiro tivesse forçado a remada sobre sua prancha na primeira onda. Para o esporte, o melhor foi vê-los de volta ao jogo, restritos à técnica na onda.

Fica só a dúvida de que entrevista o Julian daria caso não tivesse a benção da virada.

Foi interessante observar a reação efusiva de Mick Fanning, companheiro de equipe de Gabriel, com a vitória de Julian. Com a explosão de alegria, Mick, reconhecidamente um gentleman do esporte, fortalece a ideia de que, sim, as nações ainda exercem um papel fundamental na competição, e que as equipes são quase uma formalidade.

Jordy Smith e Kolohe Andino pararam nas semifinais. Jordy fez um resultado fundamental à pretensão de título mundial – 6.500 pontos, numa arena em que não tem um grande histórico de resultados. Foi uma vitória pessoal, transformada em merecida liderança do ranking.

Kolohe, depois de uma sucessão de quatro resultados pífios, renasceu para a temporada. Combinou boa técnica de tubos com manobras encaixadas, num dos raros anos que Teahupoo ofereceu paredes afeitas a batidas, rasgadas e aéreos.

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Wiggolly Dantas surfou o fino, mas boiou nas quartas contra Kolohe Andino e perdeu grande oportunidade de fazer a semifinal brasileira com Gabriel. Foto: © WSL / Cestari.

 
Entre os outros brasileiros, Wiggolly Dantas surfou o fino, mas boiou nas quartas contra Kolohe Andino e perdeu grande oportunidade de fazer a semifinal brasileira com Gabriel. Em Teahupoo, Guigui é melhor que Kolohe. Em Teahupoo, Guigui é melhor que Kolohe. É preciso repetir o mantra mil vezes, até se convencer disso.

Duas derrotas precoces me chamaram a atenção. Italo Ferreira, bastante afiado, endureceu a disputa com Julian Wilson – o resultado apertado poderia ter ido para qualquer um dos lados, mas foi para o australiano. Já Filipe Toledo, que vinha de performance inesquecível na África do Sul, chamou a atenção por uma derrota improvável, mesmo num mar pequeno, atípico para Teahupoo. Com a prioridade nas mãos, apostou errado e deixou o decepcionante Ethan Ewing fazer a onda que lhe daria a virada. Erro de estratégia caro, mas Trestles possivelmente vai redimi-lo: pelo que fez este ano, Filipe é o favorito destacado nos EUA.

Vamos a San Clemente.

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