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O rancho, o Jean e o Havaí
Por Tulio Brandão em 06/12/17
Tulio Brandão fala sobre a inclusão do Surf Ranch no Tour, a morte de Jean da Silva e a Tríplice Coroa Havaiana.
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Kanoa Igarash em ação no Surf Ranch. Foto: WSL / Rowland.

 

Um turbilhão de conquistas, dramas e tragédias revolveu os recônditos do surfe nos últimos 30 dias. Acordamos sem Trestles e Fiji, ganhamos de consolo Keramas e a esperada novidade do Surf Ranch. Anoitecemos um pouco com a perda de Jean da Silva, choramos a partida inesperada de Oscar Moncada. Como dentro d’água, a vida não para – vai ver que é por isso que gostamos tanto – quando abrimos os olhos Filipe Toledo tinha levado Haleiwa e Conner Coffin, bamburrado em Sunset. O Havaí agora pulsa à espera da batalha do ano, em Pipeline.

É hora de dar uma olhada nas novidades, uma a uma.

As novas da Liga.

A primeira é o pacote de surpresas oferecido pela World Surf League. Numa só tacada, a entidade retirou do calendário a onda mais famosa de San Clemente e uma esquerda de qualidade internacional. Em contrapartida, para desespero dos goofys, encaixou mais uma direita tubular num país de esquerdas, a Indonésia, além da desejada piscina de ondas de Kelly Slater.

Noves fora todas as prováveis questões econômicas que envolveram as decisões, a entidade precisa decidir se quer construir tradição ou ficar à mercê de estratégias mirabolantes, de novos modelos de negócio, cada vez que entra um novo gestor.

Perder Trestles é um tiro no pé terrível. E se isso for em nome da entrada do rancho do 11 vezes campeão mundial, é uma infâmia. Não me parece sensato trocar o surfe real, num pico reconhecido como um skate park natural, por uma onda movida a turbina.

Aqui não vai nenhuma crítica à piscina. As lindas ondas já rabiscadas pelos melhores surfistas do mundo em Lemoore são o sonho mais clichê de todo surfista comum. A piscina oferece a promessa de perfeição, a segurança de um cálculo matemático revisado mil vezes e a certeza de voltar para o fundo e pegar outra igual. Isso é insuperável, uma fantástica novidade para o mundo do surfe, desde que não afete a essência imprevisível – e por isso bela – do esporte.

Afinal, quando estiver na piscina, o que fará a WSL com o slogan ‘you can’t script this’?

Na mesma época, recebi da entidade uma honesta pesquisa para saber o que eu achava da cobrança pelo acesso online aos eventos. Numa resposta livre, disse que preferiria continuar vendo anúncios a ter uma transmissão aberta, sem interrupções publicitárias, e pagar um punhado de dólares anuais. Imagino que seja uma resposta default no Brasil, um país pobre, na maior crise econômica de sua história.

Considerando esse contexto, considerando ainda que o público brasileiro representa um percentual importante do total de acessos no site da entidade, pergunto-me mais uma vez se a entidade tem seguido estratégias seguras. Tudo depende do tamanho do abismo em que a WSL navega neste momento. Se eu tivesse que apostar, diria que a transmissão paga são favas contadas, certas como a onda do rancho. Resta saber que pacote de benefícios eles darão a assinantes – limpar a publicidade, apenas, é pouco.

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A morte de Jean da Silva serve também para fazer cair um pouco o véu de “vida dos sonhos” de surfistas. Foto: WSL / Ed Sloane.

 
Jean nos deixou. Perplexos.

Um amigo que jamais subiu numa prancha me indagou, perplexo: “Não é possível, ele era surfista. Surfista é cool. Só pode ser sido provocado por droga, não é possível.”

Não. Todos os relatos, unânimes nas redes sociais, dão conta de que Jean era um cara doce, bom, amigo de todos, e que não tinha histórico de problemas com qualquer tipo de droga. Era um desses seres humanos iluminados.  

Mas há uma armadilha terrível na busca esquizofrênica por motivações (ato que todos nós inconscientemente praticamos), porque a causa, ainda que tivesse sido pelo gatilho de algum fator externo, simplesmente não importa.

No fundo, lá no fundo mesmo, só importa para dar ao leitor (e ao colunista) o conforto de se perceber fora da zona de risco. Sem sabermos, somos egoístas ao extremo. E responsabilizamos o outro, a vítima, pela sua própria doença.

O que é preciso saber: depressão é um mal que pode atingir qualquer um de nós, a qualquer tempo da vida. Não estamos fora da zona de risco. Lidemos com isso.

A morte de Jean serve também para fazer cair um pouco o véu de “vida dos sonhos” de surfistas. Numa leitura apressada, Jean tinha a rotina que todos nós queríamos. Era pago para viajar, produzir vídeos e competia sem tanta pressão por resultados. Era querido em todos os picos, fazia amigos com facilidade, surfava muito bem.

Pois é, isso não foi o suficiente para Jean. Por razões distintas, não foi o suficiente com muitos outros – não faltam casos de vidas que o surfe não conseguiu salvar. Muitas vezes a vítima não tirou a própria vida, mas viveu um martírio silencioso até a morte.

O surfe é, sim, um esporte de sonhos. Nós, que surfamos, sabemos disso e temos orgulho de fazer parte do pequeno grupo global que detém esse prazer. Mas não nos iludamos – a vida tem questões bem mais complexas. E a depressão é uma delas.

Na esteira de Jean, perdemos ainda Oscar Moncada, mexicano bom de tubo que horas antes da morte havia escrito um lindo texto em homenagem a Jean. Triste.

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Gabriel Medina treina para a decisão do título mundial em Pipeline. Foto: Bruno Lemos / Sony Brasil.

 
O Havaí pulsa.
 
Um dos alentos é perceber que a roda-viva não para, especialmente no Havaí.

O primeiro ato foi de Filipe Toledo, numa Haleiwa ainda sem muito pulso. Noves fora o mar atípico, Filipinho foi soberano mais uma vez no ano. Deu mais uma mostra que, em condições convencionais de onda, é “o cara” a ser batido em 2018.

Optou por não competir em Sunset, para se resguardar para Pipeline. Lamentei, porque buscar a Tríplice Coroa Havaiana seria fundamental a um surfista que ainda enfrenta certa desconfiança nas chamadas ondas de consequência. Assumir o comando do surfe no arquipélago seria uma estratégia e tanto para dissolver definitivamente a imagem, que pode até ser injusta, de surfista incompleto. O título da TCH o elegeria, em condições ainda mais notáveis, ao título de 2018.

Em Sunset, o título ficou com Conner Coffin, que surfou bem como tantos outros. É digno de nota que a abordagem àquela onda, nos últimos anos, foi completamente modificada. Nos últimos dias, vimos um espetáculo raro, com manobras verticais, bordas enterradas em curvas fechadas, pauladas na junção impensáveis e tubos cada vez mais profundos, por conta da redução do tamanho das pranchas.

A idílica imagem das longas paredes desenhadas por pranchas enormes em curvas bem abertas parece, pelo menos entre os melhores do mundo, ser coisa do passado.

Agora, a partir do dia 8, é a explosão de Pipeline. Gabriel Medina e John John Florence, os dois campeões mundiais mais jovens da elite, duelarão pelo título na onda em que mais se sentem à vontade, vigiados pelo olhar atento de dois outros candidatos, Julian Wilson e Jordy Smith, e de todo o mundo do surfe.

São muitos ingredientes que, juntos, podem produzir uma das maiores decisões dos últimos tempos. Que a WSL deixe que vença o melhor, seja lá quem for o eleito.

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