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O ocaso do livro de regras
Por Tulio Brandão em 10/08/17
Tulio Brandão comenta interferência aplicada em Filipe Toledo durante a semifinal do US Open.
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Filipe Toledo cai na semifinal do US Open. Foto: WSL / Morris.

 

O volumoso livro de regras da WSL deve ter pesado nas mãos de Rich Porta, chefe dos juízes no dia decisivo do US Open. Na água da mais simbólica que desejada Huntington Beach, Filipe Toledo caía mais uma vez na arapuca de Kanoa Igarashi, um surfista que, na opinião de Martin Potter, posiciona-se como um “estudante aplicado do jogo”.

De novo, o melhor surfista do evento (e talvez, pelo menos neste momento, do mundo, em boa parte das ondas do tour) se colocava diante da possibilidade de ser punido. Como se não bastasse a lição do Brasil, em situação semelhante, contra o mesmo estrategista americano, no mais famoso píer de Orange County o brasileiro estava mais uma vez na mira do velho livro de regras da WSL, um detalhado documento de 110 páginas com muitos artigos escritos nos primórdios da ASP.

A disputa de onda entre os dois surfistas, num momento sem prioridade definida, deu margens a um mar de interpretações, mas quem estudou os 186 artigos e sete apêndices, como Kanoa, sabe que, na letra da lei, não havia saída. Dura lex, sed lex.

A regra está lá no Capítulo 9, que fala sobre regras de interferência e prioridade. O artigo 147 dá ao surfista que está mais para dentro da onda (inside position), em sua parte mais crítica, o direito incondicional de percorrê-la em situações sem prioridade. Já o artigo 148.03 indica que, em caso de pico bem definido com esquerda e direita disponíveis, sem que se determine qual delas é a melhor, o direito de surfar a onda vai para o surfista que primeiro conseguir fazer a curva para o lado escolhido.

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Embora Filipinho tenha ficado de pé e feito a curva primeiro (artigo 148.03), os juízes entenderam, e isso parecia claro no vídeo, que ele estava fora do pico – no rabo da esquerda e atrás do pico da direita. Foto: WSL / Morris.

 
Embora Filipinho tenha ficado de pé e feito a curva primeiro (artigo 148.03), os juízes entenderam, e isso parecia claro no vídeo, que ele estava fora do pico – no rabo da esquerda e atrás do pico da direita. Com isso, optaram pela regra básica de situações sem prioridade, que prevalece sobre as demais, a do artigo 147.

Descontada a combinação explosiva de talento e afobação de Filipinho, já muito bem retratada em texto recente do amigo Felipe Zobaran neste site, há uma questão nos dois episódios que envolveram o brasileiro, em Saquarema e em Huntington Beach, que merecem um olhar atento: a prioridade convencional de quem está no pico.

O surfe se desenvolveu como esporte com a noção de prioridade associada a quem estava na parte mais crítica da onda. Em décadas passadas do século XX, quando a regra foi consolidada, o desenvolvimento do esporte fazia crer que o surfista posicionado no pico seria capaz de aproveitar o limite da onda.

A prioridade existe, portanto, para garantir que o atleta mais bem posicionado possa percorrer a parede em toda a extensão possível. Ocorre que, com a evolução exponencial da técnica de surfe e a revolução dos equipamentos, esta lógica, sobretudo num ambiente competitivo profissional, mudou radicalmente.

Competidores de ponta usualmente entram na onda atrás do pico e usam a parte mais crítica da formação inicial da onda, de onde dropavam os antigos profissionais, como pista preferencial para a primeira manobra. A velocidade das pranchas permite, a partir de um determinado nível técnico, que um surfista supere seções que no passado eram aparentemente instransponíveis com alguma tranquilidade.

No caso em questão, de Filipinho e Kanoa, parecia nítido que, considerando o padrão técnico dos surfistas de elite, a direita escolhida pelo brasileiro, ainda que atrás do pico, era uma onda superior à esquerda do americano. Numa leitura livre, associada à capacidade de aproveitar melhor a onda, o brasileiro portanto teria a preferência.

Mas, ali, para inverter a prioridade, as regras precisariam ser adaptadas ao surfe contemporâneo. Em muitos casos, o pico não é mais definidor da capacidade de correr toda a onda. O difícil é amarrar a regra a um novo parâmetro, para evitar que o julgamento vire uma babel descontrolada de interpretações.

Uma coisa é certa: a velocidade de Filipinho e de seus pares não cabe mais na empoeirada carta magna da WSL. A nova técnica é transgressora.

Mude-se a lei.

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