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O filho de Bells
Por Tulio Brandão em 20/04/17
Tulio Brandão destaca performances de Jordy Smith, Caio Ibelli e outros atletas no Rip Curl Pro Bells Beach.
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Jordy Smith em ação nas finais do Rip Curl Pro Bells Beach. Foto: © WSL / Cestari.

 

Jordy Smith sempre foi um surfista marcado para vencer em Bells. Base neutra, pesado, técnico, ele é o mais potente enterrador de bordas do circuito mundial. Quase um filho escolhido do pico, um parentesco por afinidade, ainda que seja sul-africano.

Em outros anos, quando bateu na trave, despontou destacadamente como o melhor surfista da prova. Suas derrotas inesperadas deixavam um gosto amargo em quem preza o bom carving. Eu mesmo lamentei publicamente, em anos anteriores, sua incapacidade de vencer o evento mais tradicional da Austrália.

Pois em 2017, na arena gelada da Rip Curl, o sul-africano finalmente badalou o sino. O destino, essa incontrolável ferramenta, quis que ele vencesse num ano em que não se destacou especialmente como o melhor surfista da prova, num ano em que ele optou por ser mais constante e consistente que surpreendente e brilhante.

(Era um sino tão esperado que Jordy, meio a brinca, meio marrento, acabou badalando-o de maneira imaginária no meio da final. Deu sorte. A imagem viraria um meme ridículo se Caio encontrasse uma segunda onda forte e virasse a disputa.)

Antes que me esfolem, Jordy foi o campeão legítimo de Bells. Venceu todos os adversários com justiça, impôs sua técnica nas paredes por vezes deitadas do pico, passeou com sua técnica com tranquilidade pelas diversas condições do pico.

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Caio Ibelli tem campanha espetacular. Foto: WSL / Barripp.

 
Caio Ibelli, o rookie do ano passado, segue as lições de Jordy. Assim como fez o sul-africano, está pavimentando seu caminho de “especialista em Bells” com um belo bottom-turn, peso nos arcos, linha desenhada e um ataque vertical nas finalizações.

Impressiona, também, em Caio a vocação para surfar sob pressão. Não é a primeira vez – e não será a última – que o brasileiro elimina um favorito com uma onda nos instantes finais de disputa. Ele leva vantagem na troca de notas porque parece se sentir confortável em “bater pênaltis” na última onda. Por conta disso, tem crédito para chamar de freguês o melhor surfista do mundo.     

Aproveito a deixa para abrir a lista dos que mais me impressionaram exatamente com a maior vítima do poder de decisão de Ibelli. John John Florence apresentou pela segunda vez consecutiva sua afiada releitura do surfe de carving, desta vez combinada a movimentos aéreos impressionantes. Não é a primeira vez que o havaiano perde em condições de favoritismo – e, pelo visto, este ano, se ele perder, não será a última.

De todo modo, o terceiro em Bells o coloca em posição muito privilegiada na disputa do título da temporada. Uma vitória e duas semis na perna em que ele historicamente atola nos resultados faz mesmo o mais crítico desconfiar que será difícil alguém impedir seu bicampeonato. Tudo parece conspirar a favor dele.

A esperança dos adversários é a doce imprevisibilidade do esporte.

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O terceiro lugar de John John Florence em Bells o coloca em posição muito privilegiada na disputa do título da temporada. Foto: WSL / Ed Sloane.

 
São surpresas (ou nem tanto) como as de Ezekiel Lau, havaiano que passou anos atolado na lama medíocre da divisão de acesso e, ao ser abençoado com uma vaga improvável na elite, surfou o fino para fazer semifinal numa onda que, como gostam de dizer os australianos, quem é ruim não vence. Lau esteve na ponta dos cascos em Bells: drive, velocidade, belos arcos e uma verticalidade que poucos conseguiam alcançar. Se tivesse conseguido remar na última onda (e não tivesse tomado a espuma na cabeça), provavelmente teria eliminado Jordy e estaria na final.  

Outro gigante em Bells foi Filipinho Toledo. Depois de fazer bonito em Margaret, mesmo nos dias mais pesados, o talentoso filho de Ricardo desfilou um renovado power carving em Bells. Estamos tão acostumados a exaltar os movimentos progressivos do garoto que rola uma certa timidez para exaltar outros atributos. Pois então lá vai: em direitas como as de Bells Beach, Filipinho hoje está entre os melhores surfistas de borda do mundo. Não há qualquer exagero na afirmação.

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Filipe Toledo, outro gigante em Bells. Foto: WSL / Barripp.

 
A contundência com a qual eliminou Joel Parkinson, espécie de eminência parda do pico e mestre absoluto do mais sofisticado surfe de borda, é a melhor resposta para quem desconfia de Filipinho.

Adriano de Souza também teve bons momentos, mas esteve mais inconstante e não conseguiu reproduzir um bom surfe nas quartas contra Jordy. De todo modo, está bem posicionado no ranking, de volta à velha forma competitiva. Aguardem luta.

Wiggolly Dantas foi, ao lado do clássico Owen Wright, quem chegou mais longe entre os surfistas de base esquerda. As condições dos dias finais em Bells favoreciam claramente os surfistas regulares. Surfou bem, fez o possível no cenário apresentado.

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Adriano de Souza também teve bons momentos, mas esteve mais inconstante e não conseguiu reproduzir um bom surfe nas quartas contra Jordy. Foto: WSL / Barripp.

 
Agora é a vez de Saquarema voltar a mostrar seu valor. A etapa brasileira volta finalmente a uma das ondas mais poderosas do país, depois de 15 anos ausente. Em 2002, com vitória de Taj Burrow, o palco ofereceu dias inesquecíveis, embora a final tenha sido realizada num dia de ondas pouco consistentes.

Guigui já venceu lá na divisão de acesso. Wilko também. Gabriel Medina gosta declaradamente daquelas esquerdas. Se estiver potente, esperem um John John tão inspirado quanto Andy Irons esteve enquanto o swell esteve presente na última disputa. A onda parece, ainda, afeita ao surfe de nomes como Owen Wright e mesmo Ezequiel Lau. Nada como uma velha onda nova para esquentar a temporada.
 
PS: Para quem é afeito a exageradas teorias da conspiração, a disputa entre Silvana Lima e Stephanie Gilmore é um prato cheio. Não, não é roubo, e sim um erro colossal de julgamento. Vale ver o heat review.

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