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O brilho que não é do holofote
Por Tulio Brandão em 29/06/17
Tulio Brandão reflete sobre o atual momento de Gabriel Medina.
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As recentes derrotas de Gabriel Medina têm causado muitas especulações. Foto: © WSL / Cestari.

 

Trabalho, diz o provérbio, é o pai da fama. A máxima do poeta grego Eurípedes poderia resumir a vida de provações e privações de Gabriel Medina. O esforço do garoto e de sua família se transformou em louros, tapas nas costas, no último troféu de campeão mundial da velha ASP e, claro, em muitos holofotes.  

Acontece que, por trás das luzes da ribalta, há um público com ansiedade galopante, cuja expectativa cresce em progressão geométrica. Em seu ano mágico, Gabriel foi brindado com uma combinação de cenários especialmente favorável a uma explosão de popularidade: um país carente de ídolos, uma Copa do Mundo em que a Seleção foi humilhada em sua própria casa e o noticiário já dominado pela atual crise ética.

Todos precisavam da imagem leve de um surfista jovem e talentoso, sem qualquer traço de complexo de vira-lata, que vencia sempre com performances mágicas.

Em pouco tempo e de modo natural, virou celebridade. Transformou-se no surfista mais popular da história do país, no atleta em atividade mais procurado pela publicidade (em 2016 ficou à frente até de Neymar), em capa de muitas revistas sem qualquer relação com o esporte, em tema de reportagem especial do New York Times.

Mais que tudo, transformou-se num grande produto. Assumiu muitos compromissos, é verdade, sobretudo por ser atleta de um esporte historicamente desprezado pelo mainstream. Surfistas sempre cataram migalhas para ter espaço, talvez por isso estranhemos a agenda lotada de Gabriel. Eu estranhei, no início.

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Desde que saiu do Havaí com seu primeiro título mundial, Gabriel carrega nos ombros uma obrigação de vencer com peso semelhante à popularidade alcançada. Foto: © WSL / Cestari.

 
Desde que saiu do Havaí com seu primeiro título mundial, Gabriel carrega nos ombros uma obrigação de vencer com peso semelhante à popularidade alcançada. Nos dois anos posteriores ao título, alternou eventos apagados, desfocados, com momentos que o levaram a brigar pelo bi, o que é digno de registro.

Em 2017, depois de um bom início, em Snapper, onde foi o melhor surfista em boa parte do evento e saiu de lá com um terceiro lugar, Gabriel teve problemas. Muita gente achou que fosse apenas uma contusão, mas a sucessão de maus resultados se prolongou mais que a dor. Parecia uma letargia, algo maior.

Não faltaram especulações sobre as razões das derrotas recentes. Charles, o pai, dominou a lista de críticas que circulam na internet – muitos comentaram sobre a pertinência da contratação de um novo técnico. Falou-se também de outros supostos problemas, como dedicação insuficiente ao Havaí, desajuste com as pranchas, excesso de compromissos comerciais e até amizades do surfista com celebridades brasileiras, entre os quais Neymar e Luciano Huck.

Diante dessas indagações, fui cobrado a dar meu ponto de vista, na condição de autor do livro sobre a história da vida do surfista. Justo.

Deixei a convivência com a família, intensa no tempo que tive para produzir as entrevistas, com uma certeza particular: Charles é o pilar, o motor de tudo de bom que aconteceu com Gabriel e seus pares próximos. Ele ajudou a forjar, com métodos pouco convencionais e muito trabalho, uma ideia vencedora para todos os Medina, especialmente para seu pupilo e atleta.

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Para Tulio Brandão, Charles é o pilar, o motor de tudo de bom que aconteceu com Gabriel e seus pares próximos. Foto: WSL / Poullenot.

 
No tempo em que estive na casa, no início de 2015, um dia comum de Charles era de trabalho quase obsessivo. Organizava, planejava as viagens, estudava pranchas, avaliava os movimentos de seu surfista, discutia o treinamento de Gabriel com preparadores físicos e médicos. Não sobrava espaço para mais nada. Ali, naquele momento, era difícil pensar em alguém mais produtivo.

Do início de 2015 até hoje, o histórico de dedicação de Charles não o eximiu de cometer erros estratégicos, como o de Portugal, ano passado, quando Gabriel treinou numa praia em que não mais seria realizado o evento. Ou o da final da França, também em 2016, quando deixou o esforçado Keanu Asing no melhor pico do dia.

Do ponto de vista técnico, ainda vejo ajustes necessários no caminho do surfista, como o desafio de melhorar o surfe em direitas mais gordas e o aprimoramento do jogo de bordas de frente para a onda, usando menos o fundo da prancha no carving.

Dito isso, um novo olhar, uma nova perspectiva, sem abrir mão do aprendizado anterior, pode sem dúvida somar na evolução do surfista – ao lado de Charles, que repito, é figura fundamental na vida e na carreira do filho. O CT testemunha, neste momento, a consolidação definitiva da cultura de ex-surfistas que se tornaram treinadores, como Glenn Hall, Mike Parsons e Luke Egan.

Adicionar este modelo ao time Medina poderia ser enriquecedor.  

Muita gente reclama, ainda, que Gabriel não gasta a pré-temporada no Havaí como outros atletas. Não concordo. O cara é um surfista natural dessas ondas. Se há algum foco necessário, para corrigir fraquezas, é em Bells e similares. Uma das mais tradicionais do tour, a onda australiana ainda é palco do principal evento de seu patrocinador. Gabriel precisa vencer lá em algum momento. É quase um dever.

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Na opinião de Tulio, Gabriel Medina precisa vencer em Bells Beach em algum momento: "É quase um dever". Foto: WSL / Barripp.

 
Ainda acho que, a título de investimento em viagens, valeria, também, um treinamento intensivo em algum outro canto do mundo com ondas boas, com o objetivo específico de refinar alguns movimentos, sem perder expressão.

Sobre a parceria com o Cabianca, quem fala que Gabriel deve testar outras pranchas talvez não saiba, mas ele já as testa. Na pré-temporada, este ano, surfou com modelos JS. Por contrato, está livre para trocar de shaper a qualquer momento. Não há qualquer exigência de fidelidade. Portanto, se fica com as pranchas do Johnny, é porque ainda sente, dentro d’água, que são as melhores para ele.

Sobre os compromissos comerciais de Gabriel, antes que alguém torça o nariz, Roger Federer é um grande produto. Neymar, Lewis Hamilton e Stephen Curry, idem. Em seus devidos esportes, altamente competitivos, eles vivem dias repletos de compromissos e, sim, se esforçam para conciliar publicidade, entrevistas e agenda com patrocinadores. Gabriel talvez tenha sido o primeiro surfista a fazer isso de maneira mais constante, mas, claro, não o primeiro atleta. O desafio – e não é pequeno – é se adaptar a essa vida louca repleta de compromissos. Só vale se conseguir conciliar.  

Já a fofocada de Caras, sobre as amizades do surfista com Neymar e outros famosos, não me interessa. Não leio nada sobre celebridades, não curto esse mundo, mas a vida privada de um surfista não me diz respeito. Desde que regrada, sem atrapalhar os treinos, não tem qualquer relação com o rendimento dentro d’água. Você, como eu, pode até não curtir esse universo, mas associá-lo a maus resultados, como forma de defender um suposto purismo do esporte, é de uma ingenuidade brutal. Isso, claro, considerando que a agenda de treinos não foi comprometida.

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"Já a fofocada de Caras, sobre as amizades do surfista com Neymar e outros famosos, não me interessa", escreve Tulio. Foto: Reprodução / Instagram.

 
Há mesmo um conjunto de variáveis que poderiam explicar os maus resultados recentes. Impossível bancar uma causa. Pode ser uma soma delas, pode não ser nada disso. O fato é que ninguém respeita má fase de craque. Como dizia o técnico Otto Glória, “se ganha, é bestial; se perde, uma besta.”

Se eu tivesse que apostar numa causa determinante, ficaria com uma menos terrena, mais transcendental. Gabriel integra um grupo de atletas capazes de, em algum momento, fazer o público acreditar em mágica, no que não é explicado em teorias ou nas causas terrenas fartamente discutidas acima. É o que o jornalista Alex Guaraná, amigo de quem discordo e concordo, chamou de “fator x”. Por alguma razão, o brilho que encanta juízes e expectadores, que não é do holofote, anda intermitente.

Quando ele está protegido por esta “capa”, surfa com uma inabalável certeza de vitória. Kelly Slater, por muitos anos, foi o maior portador dessa vestimenta no surfe.

Gabriel precisa refazer o caminho que o levou a vitórias especiais – como a do Canto do Maluf, há quase dez anos, quando conquistou seu atual patrocinador; ou a do WQS de Imbituba, quando redefiniu padrões do surfe progressivo; ou a do WCT de San Francisco, quando venceu Joel Parkinson de costas para a onda, sem dar um aéreo; ou a mais emblemática delas, num magnífico dia de Teahupoo, contra o maior surfista.   

O campeão de 2014 tem que lutar para, em 2017, não perder para o Gabriel de 2011.

Um caminho talvez seja encontrar o elemento comum a todos esses momentos mágicos, além de fazer o que estiver ao alcance para melhorar sempre, num ambiente cada vez mais competitivo. Só quem tem a resposta é o próprio Gabriel.

Enquanto a recuperação não vem, vale ouvir um velho provérbio, de apenas três palavras, usado tanto para os melhores quanto para os piores momentos da vida:

“Isto vai passar.”

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