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Leitura de Onda
A era da velocidade
Por Tulio Brandão em 22/07/17
Tulio Brandão analisa a vitória de Filipe Toledo e a revolução do surfe competitivo em Jeffreys Bay, África do Sul.
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Para Tulio Brandão, Filipe Toledo merecia "nota 15" na onda onde em que completou dois alley-oops gigantes. Foto: © WSL / Cestari.

 

Vivi os últimos dias com a sensação de ser espectador privilegiado de uma revolução. De algo realmente novo, uma mistura inédita de clássico com contemporâneo, uma explosão de criatividade que pouquíssimos esportes oferecem. De uma nova forma de abordar a onda, mais veloz, intensa, descolada dos aparentes limites competitivos. 

 

Nesses dias, vi o brilho destacado de Filipe Toledo, em vitória mais que justa, necessária ao esporte, na inesquecível etapa de Jeffreys Bay de 2017.

 

Em momentos como esse, quando me impressiono a ponto de chamar algo de revolução, desconfio de mim mesmo. Forço-me a ser mais crítico, a encontrar variáveis que posicionem o surfista ao lado de outros, busco o contraditório. Ouço outras opiniões. Faz parte do exercício do jornalismo diário, meu dever de ofício.

 

Busco o olhar maduro de quem já viu muitas revoluções, como o do sul-africano Shaun Tomson, profundo conhecedor da onda de Jeffreys Bay. Da voz serena do campeão mundial de 1977, escuto que Filipe acaba de estabelecer uma nova “era da velocidade”. No meio do discurso, ele compara o feito do brasileiro ao do australiano Mark Richards, com a aceleração promovida pelas suas biquilhas, no fim dos anos 70, quando iniciou a odisseia de seus quatro títulos mundiais.

 

E sacramenta, preciso: “O que Filipe fez com carving, velocidade e jogo de aéreos em Jeffreys Bay sintetiza as melhores partes do surfe unidas num pacote explosivo”.

 

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Filipe Toledo faz história ao ser o primeiro brasileiro a vencer um evento do CT em Jeffreys Bay, África do Sul. Foto: © WSL / Cestari.

 

Fico mais tranquilo, ao lado do mestre Tomson. Deixei o evento com o mesmo olhar, com sensação semelhante à que tive quando dei de cara com os carvings negativos de John John Florence em Margaret River, meses atrás. Os dois estão fazendo história, dessas que só acontecem de vez em quando, e nós somos testemunhas. Acreditem.

 

J-Bay nos brindou com a mais inesquecível etapa de ondas de manobra que eu me lembro de ter visto. Sem exagero, foi um dos espetáculos esportivos mais completos que já acompanhei, com todos os elementos alinhados – água azul, ondas perfeitas de todos os tamanhos, tensão, dramas, tubarões e, mais importante, um conjunto de atletas que alcançou o recorde histórico de oito notas máximas durante o evento.

 

A solução da World Surf League para manter o evento num pico infestado de tubarões é absolutamente genial. A entidade criou um eficiente protocolo de segurança, com monitoramento contínuo e ação de evacuação rápida, e, por tabela, ganhou de presente um valor diferente, de esporte que sabe conviver com o ambiente que o cerca – sem falar nas imagens alucinantes, viralizáveis. Até Mick Fanning e Julian Wilson, que foram visitados pelos dentuços novamente, ficaram tranquilos. (Clique aqui para saber mais)

 

O evento foi tão legal que até o barco de apoio, num dia com séries bem grandes, foi obrigado a surfar uma onda para não ser varrido. A imagem, para quem não viu, é absolutamente aterradora – e se encaixa no espetáculo que J-Bay proporcionou. (Clique aqui para assistir)

 

Filipe foi avassalador, mesmo quando caiu para a repescagem no round 1. Antes de perder, deu tempo de encaixar uma sucessão turbinada de manobras de borda, que lhe rendeu um 9,50 e muitos cabelos em pé de quem o assistia pelo vídeo ou na praia.

 

No caminho para a final, teve tempo de atropelar por duas vezes dois dos grandes surfistas do evento – o local Jordy Smith e o australiano Julian Wilson. Venceu ambos na fase 4, não eliminatória, em bateria que entrará para a história pela onda “nota 15” de Filipe Toledo, com dois alley-oops gigantes, e depois voltou a vencer o primeiro nas quartas e o segundo na semifinal.

 

Jordy fez um evento de momentos soberbos e eventuais vacilos. Se, no único momento de mar infame do evento, quase perdeu na fase 2 para o convidado local Dale Staples – os juízes certamente consideraram o tamanho da perda ao julgarem a última onda de Staples – pouco depois deu uma aula magna sobre os melhores caminhos do uso de borda, quando fez legítimos 20 pontos em 20 possíveis, em bateria contra Leo Fioravanti.

 

Aqui uma rápida consideração sobre a avalanche de notas 10, motivada certamente pela combinação (mais rara que poderia supor um leigo) de ondas perfeitas durante todo o evento e um grupo de surfistas em estado especialmente inspirado. Talvez, em algum momento do futuro, a WSL tenha que pensar em diferenciar ondas julgadas com notas máximas: ou diminui a escala, para dar nota 10 apenas para a melhor das melhores, ou amplia o alcance da nota – com um máximo de 15 pontos, por exemplo.

 

Filipe, com a melhor onda de manobra já surfada na história, mereceria um 15. 

 

As quartas entre Jordy e Filipe tinham todos os ingredientes de uma final antecipada, sobretudo diante da inesperada derrota de John John Florence, que vinha surfando muito ao longo do evento, na bateria anterior. De um lado, o melhor surfista de borda do mundo, com uma abordagem clássica em seu reino; de outro, o futuro, encarnado na figura de Filipe, que combinava um novo uso do carving, mais rápido e agressivo, com seu já conhecido repertório de manobras aéreas.

 

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Visual cinematográfico de Jeffreys Bay compõe o cenário de um dos mais belos espetáculos esportivos. Foto: © WSL / Kirstin.

 

Deu Filipe, que na sequência atropelou Julian, outro surfista que brilha em paredes afeitas a arcos e tubos. Vale dizer que tanto o australiano quanto Jordy têm estofo técnico para alcançar o modelo de surfe imposto por Filipinho, mas, ali, em J-Bay, optaram por uma versão mais conservadora do surfe. Ano que vem será diferente.

 

Na outra chave, um português com um clássico e potente surfe base-lip, enfileirava sem piedade uma sucessão de campeões mundiais. No caminho para a final, Frederico Morais, o Kikas, venceu Mick Fanning, John John Florence e Gabriel Medina. A partir do round 4, fez somas superiores a 19 pontos por duas vezes e a 17 pontos outras duas vezes, inclusive na final, quando poderia ter saído com a vitória sobre Filipe, se a onda que esperava viesse antes da sirene de fim do evento.

 

Surfou o fino, na linha consagrada de J-Bay, e fez história para Portugal. Mostrou que, além de surfe, tem fúria competitiva, ao não se intimidar diante de gigantes e ao demonstrar, em expressão contida no pódio, que acreditava ir mais longe.

 

A final de Kikas é a consagração de um país que sobe, degrau a degrau, na escada da elite do surfe mundial. O resultado tem um pouco de gente como Tiago Pires, o Saca, ex-surfista do WCT que teve sua vida contada num documentário recente de Júlio Adler; ou de To-Zé Correia, presidente da Câmara Municipal de Peniche, um apaixonado pelo surfe que decidiu levar a elite para a sua praia e criou uma cultura.

 

A despeito de todos os méritos de Kikas, em J-Bay vi um julgamento ligeiramente sobrevalorizado do português, especialmente em duas baterias – contra John John Florence, nas quartas, e Filipinho, na final. Na comparação entre a abordagem do português e a dos dois outros surfistas, há uma diferença de velocidade e, sobretudo, de abordagem. O havaiano e o brasileiro oferecem caminhos bem mais modernos e se colocam em posições mais críticas na onda, mas parece que o painel de juízes não identificou essa diferença durante o evento. JJ, para mim, não perdeu. E Filipe não poderia estar em risco de perder, se viesse mais uma onda.

 

Vale a ressalva: ainda assim, Kikas surfou muito, esteve entre os melhores do evento e, pelo que apresentou em todos os dias, mereceu sua vaga na final.

 

Gabriel Medina ressurgiu para a competição. Em J-Bay, onde parou apenas para o rolo compressor Kikas na semifinal, o campeão de 2014 deu sinais de ter recuperado sua fúria competitiva. Se não esteve entre os melhores do evento, um terceiro lugar diz muito sobre a recuperação de seu espírito inquebrável e sua capacidade inventiva. Avançou porque competiu bem e usou suas armas na hora certa, como a colocação em tubos de costas para a onda e as potentes sapatadas nas partes mais críticas.

 

A sequência de eventos é muito favorável a Gabriel. Não seria absurdo dizer que ele tem chance de terminar pelo menos entre os três primeiros em todas as provas restantes da temporada – Teahupoo, Trestles, Hossegor, Peniche e Pipeline. Isso significa dizer que, sim, Gabriel ainda está totalmente na luta pelo título de 2017.

 

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Kelly Slater deve ficar de 4 a 6 meses de molho pela fratura no pé. Foto: WSL / Steve Sherman.

 

A nota triste do evento foi a fratura no pé de Kelly Slater, num acidente bobo, durante um treino antes da fase 3. As paredes geladas de J-Bay teriam sido o palco perfeito para o americano mostrar que ainda tem lenha para queimar em ondas de manobra. Uma pena. Muita gente desconfia de que ele tenha sido aposentado pela contusão, mas o mais legal é acreditar, sempre, na volta. A gravidade da fratura – ele ficará entre quatro e seis meses de molho – possivelmente garante ao surfista um convite para a elite em 2018, quando estará com 46 anos. Com ele, vale o clichê: não ouse duvidar.

 

A segunda metade da temporada foi alcançada da melhor forma possível: seis eventos, seis vencedores diferentes; três surfistas na casa dos 31 mil pontos; candidatos reais ao título de volta ao top 10, como Filipe e Gabriel; cinco campeões mundiais ativos (seriam seis, se Kelly estivesse dentro) e um nível cada vez mais alto de disputa.

 

A próxima etapa, em Teahupoo, será de provação para o campeão de J-Bay. Ano passado, foi eliminado pela porta dos fundos, na sombra, na fase 2, quando perdeu para Jadson André somando apenas um 3,83 e um 2,80.

 

Filipe atingiu um nível tão refinado do esporte que, a meu ver, se realmente quiser, não terá dificuldades em converter rapidamente sua técnica para dominar também as esquerdas tubulares. É urgente que ele faça isso, se já não fez. Caso vá bem no Taiti, suas chances de título – não só pelos pontos, mas pela aceitação do universo do surfe – aumentam exponencialmente. A ver.

 

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Sequência de próximos eventos favoráveis deixa Gabriel Medina mais vivo do que nunca na briga pelo título de 2017. Foto: © WSL / Cestari.

 

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