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Rosa dos Ventos
Dropar ou não dropar
Por Fernando Costa Netto em 21/03/17
Uma análise cronológica da surfwear brasileira nas últimas décadas.
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O tal do prego, especialista em fazer onda. Foto: Elisabetsky.

 

Esses dias li uma pesquisa de 2009 e fui pego por alguns pensamentos. Eu não sou analista de mercado, bem longe mesmo disso, mas arrisco uma reflexão sobre a surfwear brasileira.

 

Nos anos 70, o mercado nasceu bem artesanal, certeiro no estilo e no que a pequena comunidade queria. As estampas, as modelagens, tudo era espelhado em marcas californianas que as revistas gringas mostravam. Eram a Val Surf, Hang Ten, Hobie, Jantsen, etc.

As primeiras peças criadas no Brasil eram quase, exclusivamente, camisetas e bermudas inspiradas no que se fazia lá fora. O surf era um esporte jovem e, exceto pelas meninas que adoravam os meninos mais descolados da escola, ninguém entendia aquele tribinho que andava diferente, que usava umas roupas estranhas e tinha os cabelos queimados de sol.

 

Na virada para os 80 o surf começou a se estabelecer e começaram a surgir algumas marcas, já com estrutura e capitaneadas por uma maioria esmagadora de surfistas. Digo maioria porque a produção haole ou não-endêmica, que não tinha qualquer legitimidade, já esboçava atrevimento.

Fazendo uma analogia, é aquele surfista prego, o fanfarrão que chega remando e perguntando se você viu o "tubaço" que ele pegou! Pois uma versão piorada desse "atleta" também existiu na surfwear e nos 80 pipocaram aos montes. Digo existiu porque a surfwear, "aquela", não existe mais e no final da década já dava para apostar nisso.

Aquele mundo de sun isso, pipe aquilo em mãos erráticas gravitando em torno do pequeno e legítimo grupo que vislumbrou um caminho para suas vidas perto da praia. Não ia dar certo. Os astronautas do surf eram só comerciantes que queriam fazer um troco em cima da nova onda e uma descaracterização do que era a indústria do surf não poderia resistir tanto tempo, a tantas marcas e tamanho mau gosto.

E ainda tivemos um maral forte em 1991 chamado Fernando Collor de Melo. Era sexta-feira, 16 de março, quando o caçador de marajás anunciou em rede nacional um pacote radical de medidas, incluindo o confisco dos depósitos bancários e até das intocáveis cadernetas de poupança dos brasileiros.

Quem tinha separado R$5 mil cruzados novos na quinta para pagar um fornecedor acordou sem cruzado novo algum na sexta. Tudo dobrava de preço de um mês para o outro com a inflação anual de 1.500%. O Brasil era uma Venezuela! Correndo por fora, uma pirataria brutal que pilhava o mercado. Quem sobreviveu àqueles tsunamis, ou era muito rico e bancou, ou era do ramo pra caralho!

 

Esses mercadores do surf tinham perfil parecido. Haviam recorrido a um dinheiro da família e se arriscaram num segmento que além de uma boa cartilha exigia uma relação emocional com o cliente, coisa que eles não tinham. Ou eram só uns caras que inventaram uma marca de surf para comer uma loira na vida.

Geralmente eram grifes com uma logomarca que remetia ao pôr-do-sol ou emprestava algum nome de praia gringa, com umas estampas escrito "Haway" [grafado errado], umas paradas new wave que estavam na moda e conceitos do tipo "The True Surf Spirit" ou "Drop this Wave", sempre em inglês, porque era mais "chique".

Gente que acreditava que uma página de publicidade nas recém-criadas Fluir e Trip iria incluí-los. Estávamos há muitos anos da primeira página de internet e o pouco que havia para se consumir era impresso.

Um ET grande que surgiu nessa época se chamava Sea Club. A Sea Club era da São Paulo Alpargatas e chegou chegando. Bancou campeonatos, patrocinou alguns dos melhores surfistas brasileiros como Guilherme Herdy, Joca Jr. e Peterson Rosa, promovia eventos, ia na redação das revistas apresentar planilhas para dizer que o surfwear era um mercado de moleques, tudo com muita educação e um único objetivo que era se aproximar do que a gente conhecia para faturar em cima do que eles não entendiam.

Depois de ascender, a Sea Club trouxe a MCD para o Brasil e talvez tenha acontecido alguma coisa no caminho que eu não acompanhei, alguém poderia comentar ou me corrigir, se quiser.

 

Alô, quem fala?

 

Um dia, ainda nos 80, o telefone tocou na redação e um cara da Sun alguma coisa me convidou para um café. Eu peguei o meu Fusca gelo e fui lá para o bairro de Santana achando que ia voltar com um ano de publicidade para a carteira da revista que eu trabalhava.

Na real, o cidadão queria saber se eu podia escrever um livro sobre a sua trajetória de empresário de sucesso que saiu de um cafundó da zona norte SP para ganhar o mundo no Guarujá!

 

Nos anos 80, as tendências e modismos, fosse americano ou de qualquer parte do mundo demoravam meses ou anos para surgirem no Brasil. O punk inglês da segunda metade dos anos 70, por exemplo, só encaixou por aqui cinco ou seis anos depois, por exemplo.

Não apenas a música, mas as roupas, os cortes de cabelo, as pranchas minimodels, o reggae, a balada Get Up Stand Up e o famoso refrão de Peter Tosh e Bob Marley “você engana as pessoas de vez em quando, mas não sempre”, parece que foi feito não só para denunciar politicamente uma situação, mas para explicar aquela presepada toda.

 

Resumindo essa história que já vai se estendendo muito, vemos que as marcas mais legais e consistentes foram criadas e são conduzidas até hoje por surfistas, uma rapaziada que primeiro aprendeu a surfar e depois a fazer negócios. Que antes de abrirem um CNPJ já estavam se divertindo em alguma praia do Brasil, olhavam uma onda e sabiam qual tinha sido a jornada dela até bater na bancada.

 

O surf é um esporte incrível, talvez o mais incrível da areia pro mar. Talvez a única modalidade esportiva que o praticante sai da arena depois de 3 horas de surf e fica outras 3 horas em devaneio analisando cada marola. Já da areia para o asfalto, sempre deixou a desejar.

 

Comentando a pesquisa do primeiro parágrafo desse texto, em São Paulo apenas, segundo levantamento feito pela respeitada Toledo & Associados, um milhão de pessoas consomem produtos e serviços ligados ao surf, movimentando R$ 1,5 bilhão de reais ao ano. Ainda há, segundo essa pesquisa, mais 7,8 milhões de potenciais consumidores apenas na capital paulista.

Pelos dados da Toledo, os esportes mais praticados por esses consumidores, os famosos simpatizantes, são futebol [32%], natação [8%] e jiu-jitsu [6%], sendo que a maior parcela [38%] não pratica esporte algum, ou seja, só jovens sedentários. As opções de lazer preferidas desses últimos são as boates [52%] e botecos [38%]. E as bebidas mais consumidas da galera que ama o surf, mas que nunca pisou numa prancha, são cerveja [58%], destilados [32%] e refrigerantes [5%].

 

A construção da marca é fundamental para qualquer empresa. Vender também, obviamente! Mas sem criar laços verdadeiros com o consumidor, surgem os oportunistas que apenas querem vender e vender, mercadoria frankenstein que sempre acaba na prateleira de ofertão das Lojas Americanas. Ou desfilando envolto em corpo estranho nas dependências da boate My Love, um puteiro aqui do centro de SP.

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