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Espírito do Surf
Precisamos falar de Adriano
Por Felipe Zobaran em 02/06/17
Felipe Zobaran destaca o grande momento de Adriano de Souza no Tour.
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Para Felipe Zobaran, Adriano de Souza é o mais inteligente dos brasileiros no circuito mundial. Foto: Luca Castro / @lucaxiz.

 

Acho Adriano de Souza o mais inteligente dos brasileiros no circuito mundial. Principalmente quando comparado aos seus dois conterrâneos mais talentosos, Gabriel Medina e Filipe Toledo.

Ainda assim, até consigo vê-lo cometendo uma interferência boba como a do Filipe Toledo contra Kanoa Igarashi na etapa de Saquarema. Afinal, era começo de bateria, Filipe estava com fome de vitória e era um dos candidatos ao título da prova. A lógica seria Kanoa não ter nenhuma chance. Foi um erro doído que deveria ter sido evitado. Aconteceu. Faz parte.

Mas suponha que fosse Adriano a cometer aquela interferência. Eu teria sérias dificuldades em imaginá-lo agindo daquela forma no palanque. Onde estava a cabeça de Filipe Toledo naquele momento? Por que ele não assumiu a responsabilidade pelo erro e pronto?

Deu no que deu. Toledo não estará em Fiji e eu lamento muito. Cloudbreak é a primeira das ondas em que poderíamos avaliar se Toledo também terá seu título de campeão mundial logo ou se ainda vamos ter de esperar mais um pouco.

Sem essa de piadas do tipo “ele deve ter adorado ficar de fora porque em Cloudbreak o mar pode ficar enorme”. Toledo deve estar se mordendo de ódio. Com razão. Tem mais: acho que a WSL errou. Punição exagerada. Filipe não tem histórico problemático. Merecia multa, sabão e perdão. A WSL penalizou também o evento e a audiência. Qualquer etapa perde muito sem Filipe Toledo. Ainda mais Fiji. Quero saber se ele aprendeu a pegar onda grande e cavernosa. Vou ter de esperar mais um pouco.

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Na opinião do colunista, punição aplicada pela WSL a Filipe Toledo foi exagerada. Foto: WSL / Poullenot.

 
Adriano de Souza não cairia nessa autossabotagem. A cabeça dele está exatamente onde deveria estar, focada no seu segundo título. Não deu para ser o primeiro campeão mundial brasileiro? Então talvez dê para ser o único bicampeão. Não é a mesma coisa, mas ainda assim é uma motivação considerável. Ser punido com suspensão em uma etapa atrapalharia muito qualquer plano nesse sentido. A briga é de foice. Perder uma chance de pontuar é um golpe duro.

Outra prova da inteligência de Adriano é que ele tem um técnico. Não é o pai dele. Não fica aqui nenhuma vontade de desmerecer Ricardo ou Charles. Este levou Gabriel, com amor e dedicação, a um feito histórico. Uma conquista que é muito dele, Charles, também. Ricardo Toledo, então, nem se fala. Foi um surfista incrível e fez o filho ser ainda melhor do que ele. Não é pouca coisa. São duas histórias de talento e sucesso, maravilhosas e emocionantes.

Agora chega de sentimentalismo. É impossível não reparar no que está acontecendo com Gabriel Medina em 2017. É o oposto de Adriano. Onde devia haver foco, vemos nervosismo.

Acredito que Gabriel Medina seja o mais pressionado de todos os surfistas do circuito. Está ganhando mais dinheiro, com muito merecimento, do que qualquer outro surfista na história do Brasil. Tem os melhores patrocínios e é visto como uma marca valiosa, que tem de manter seu apelo. É tão talentoso que todo mudo aposta, ou apostava, que ele vai ganhar vários títulos mundiais. O que não falta é olho grande em cima dele. E olho grande desestabiliza mesmo.

Fiquei chocado ao assistir Barton Lynch dizer que Medina é tido como “vilão” e que muita gente torce para vê-lo perder, enquanto JJF seria o “bonzinho”. Um absurdo, mas que talvez seja verdade na Austrália. A melhor arma contra esse tipo de pressão é preparo mental e raciocínio técnico. Por ser um esporte individual, o surf exige alta capacidade psicológica para lidar com elementos externos. Piscou, perdeu.

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"Acredito que Gabriel Medina seja o mais pressionado de todos os surfistas do circuito", avalia Zobaran. Foto: WSL / Poullenot.

 
Medina tem piscado. Perdeu para trialista, para português, numa exibição patética em termos de estratégia, e até para o novato Yago Dora, que é uma grande promessa mas ainda não chega aos pés do campeão mundial de 2014.

O técnico de Dora é o pai dele, repetindo a trajetória de Medina e Toledo. Portanto, não se trata de dizer que pai não pode ser técnico. É questão de momento. Atualmente, Medina precisa de ajuda extra.

O pai do Yago Dora, Leandro, também é técnico de Adriano. Quando Adriano sagrou-se campeão mundial, em 2015, Leandro Dora enumerou cinco pontos essenciais para a conquista: ajuste de equipamento, muita prática, preparo físico, vídeo análise e observar os adversários. Deveria ter falado também do preparo mental, da motivação e do controle, mas esses aspectos psicológicos ainda não são bem explorados de forma racional pelos brasileiros.

Adriano controlou também mentalmente a etapa de Saquarema, mostrando muita motivação na maneira como reagia a cada vitória nas baterias. Ganhou todas. Campeão invicto.

Precisamos falar mais de Adriano, da sua maturidade e inteligência. Por esse brilhante começo de ano, ele já é um dos favoritos ao título de 2017.

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