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Espêice Fia
O outro lado da moeda
Por Fábio Gouveia em 28/07/17
Fabio Gouveia fabrica prancha para rival, perde a bateria e vive situação oposta à conquista do Mundial de 1992, no Japão.
CBSurf Master 2017, Maracaípe (PE). Foto: Arquivo pessoal Fábio Gouveia.
CBSurf Master 2017, Maracaípe (PE). Foto: Arquivo pessoal Fábio Gouveia.

Em 92, durante o CT Marui OIOI Pro, na praia de Hebara, Japão, fiquei sem minha prancha favorita ao quebrá-la em uma bateria nas quartas de final. Tratava-se de uma Insight, feita pelo exímio shaper australiano Greg Webber.

Mas, para a minha sorte, o próprio Greg se encontrava no pico acompanhando seus atletas Shane Herring e Jeff Booth, e estava de posse de algumas pranchas usadas que Shane havia descartado.

A prancha era diferente dos modelos usados na época, era aquela versão “Banana Board” - curva bem acentuada e com um concave bem fundo, justamente para quebrar a inclinação.

Futurístico em suas ideias para a época, esses modelos só vieram aparecer com o "boom" da maquina de shape. A prancha era mágica, acabei ganhando o campeonato, passando pelo próprio Shane Herring e Jeff Booth na final.

Greg me parabenizou e de certa forma estava feliz, mas ironizou que estava meio encucado por ter me passado a prancha que virou minha arma contra seus atletas. Sem dúvida foi cômico, e sempre conto esta história até hoje pra galera. 

Guardo com carinho essa prancha, é parte de meu museu pessoal. Anos se passaram, retomei minhas atividades como shaper (por coincidência, na época citada eu também shapeava) e naturalmente me vi do outro lado da moeda há duas semanas, durante a etapa do Brasileiro Master em Maracaípe (PE).

Havia passado minha primeira bateria no "surfoco", somando um 2.50 (ou próximo disso) em minha segunda nota. Com uma tendinite "do cão" no ombro direito, estava perdendo várias ondas por estar sem explosão na remada, e para a disputa seguinte decidi mudar a prancha, pois a minha reserva era mais grossa e mais larga, logo me daria mais remada e estaria resolvendo parte de meu problema.

Bom, estava ciente do que a mudança poderia me causar, pois a prancha era um modelo em Epóxi, mais leve e aparentemente sem ser a ideal, pelo fato de o vento estar muito forte e as ondas de 1 metro um pouco grandes para o modelo, que ainda estava em fase de testes.

Se bem que na semana anterior ao evento eu havia surfado bastante com ela e vinha bem, no entanto em condições diferentes encontradas no dia da disputa. Acabei fazendo uma das piores baterias de minha vida, caí em umas três ondas consecutivas e quando me concentrei para me acertar, fui em busca das ondas muito no outside e acabei boiando.

Analisando bem, talvez tenha chegado à conclusão depois dos meus testes pessoais com pranchas, pelo menos neste momento. Não uso nem com a “gota serena” prancha epóxi em mares com mais de meio metro e com vento forte. Mas calma, isso é pessoal, não quer dizer que seja regra para todos e nem quero com isso incentivar ideias negativas sobre o modelo, até porque cada um surfa de um jeito e gosta de coisa diferente, pode se adaptar a coisas diferentes.

E partindo de outros princípios, também existem muitas variáveis para se controlar o peso e flexibilidade das epóxis. Se bem que, caso eu estivesse usando continuamente a prancha desde a semana anterior, poderia estar acostumado e não ter caído tanto.

O fato é que analisando posteriormente, com o epóxi, a jogatina de distribuição de força, jogo de corpo e outras variáveis são diferentes e é preciso contrabalancear. E foi o que aconteceu quando talvez no subconsciente estava querendo me acertar ao fim da referida bateria e o tempo (20 minutos) não me permitiu.

O resumo da disputa foi o seguinte, e aí é que vem o outro lado da moeda. Havia shapeado uma prancha no mês anterior para o amigo de infância Alexandre Henrique, mais conhecido como Alexandre Calcinha. Esse brother foi responsável pelo famoso Tuii Tuare Tudere Hare Days quando gravávamos nossas vozes em uma tentativa de falar inglês, lá no início da década de 80.

E lá estávamos nós na mesma disputa, na categoria Kahuna. De posse das nossas camisetas de competição, pedi para que o filho de Alexandre fizesse foto antes de entrarmos na água, pois aquela bateria seria histórica pra nós. E quão comédia não poderia ser o destino quando saímos da água com o locutor anunciando que Esdras Santos, da Bahia, havia vencido a disputa com “Calcinha” tirando a minha vaga.

Foi uma comédia, não tive nem como ficar com raiva da derrota, pois ali nossa história de amizade estava completa, e com certeza, passível de zoação com os amigos mais próximos. As brincadeiras foram inevitáveis, e certamente ajudou a diluir o chocolate (risos).

Ali me vi na pele de Greg Webber, mas um pouquinho pior, pois eu mesmo estava na disputa e perdi a bateria (risos). De qualquer forma, foi ótimo saber que a prancha feita para o amigo estava funcionando e todo o episódio serviu de aprendizado, pois, mesmo dando dicas corretas sobre competições para terceiros, fui lá e cometi o "mistake". É aquela máxima: faça o que digo, mas não faça o que eu faço, senão se lasca (risos).

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