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Sem rotina
Fissurados pelo bodyboard
Por André Carvalho em 17/10/17
André Carvalho reflete sobre a intensa vida de um bodyboarder.
Rafael Piccoli, Florianópolis (SC). Foto: Nelson Ferraz Filho.
Rafael Piccoli, Florianópolis (SC). Foto: Nelson Ferraz Filho.

Roberto Bruno, pentacampeão brasileiro e com ótima campanha no Circuito Mundial este ano, disse em um filme recente que bodyboarders são malucos apaixonados.

 

Um dos motivos que o levou a afirmar isso é o fato de um atleta profissional competir em lugares que oferecem risco de vida, Arica, no Chile, e El Frontón, nas Ilhas Canárias, por exemplo, sem contar com uma recompensa financeira que pague, no mínimo, seu período de recuperação no caso de uma lesão. Isso considerando um acidente sem consequências mais graves.

Concordo com ele e trazendo pra realidade de meros mortais como nós, lembro das maluquices que presencio por causa do bodyboard. Citando algumas, tenho amigos que trabalham a semana inteira longe do mar, mas mesmo assim me perguntam diariamente como estão as ondas.

 

No fim de semana viajam horas na madrugada pro litoral para, às vezes, “dar com os burros na água”, quando a previsão não se confirma. Outros, atravessam o estado em um dia qualquer da semana pra pegar uma onda que funciona durante duas ou três horas, em condições muito específicas e esporadicamente pra depois voltar pra casa no mesmo dia. Mais doidos, aqueles que rodam um dia inteiro olhando todas as praias possíveis para decidir não entrar na água porque as condições não lhes agrada!

 

Nessas situações percebemos o quanto a intensidade de um momento é fundamental na vida da gente, pois quando conseguimos pegar aquela onda boa, que tem no máximo dez ou quinze segundos nos padrões brasileiros, temos a certeza de que a satisfação pessoal e a ótima lembrança que ela proporciona permanecerá por um bom tempo na nossa memória. Quiçá pra sempre!

Esta busca incessante por adrenalina aliada à paixão pelo mar, pela natureza e a conexão com as ondas torna algumas sessões memoráveis. Deixa em nossas cabeças visuais incríveis, como um nascer do sol em uma manhã fria junto do cheiro de café antes de sairmos atrás das “benditas” ondas e sensações.

 

O visual da onda durante um drop insano de um amigo ou o grito de outra pessoa ecoando enquanto passamos por dentro de uma sessão tubular. A tensão quando percebemos que a série vai quebrar mais atrás e estamos mal posicionados ou depois de ver alguém se arrebentar em uma vaca. As risadas regadas à cerveja gelada depois de uma trilha no fim de um dia de surfe e o sorriso estampado no rosto de quem vê na câmera do amigo fotógrafo sua melhor onda registrada.

Outro lance de maluco é a paixão incondicional que os praticantes sentem pelo bodyboard. Fazemos piada de nós mesmos das piadas que fazem da gente. Juntamos dinheiro do jeito que dá pra pegar onda, reutilizamos equipamentos até o talo depois de termos confiança numa prancha ou em um pé de pato.

 

Sonhamos o tempo inteiro com as ondas ao redor do mundo publicadas nas redes sociais, mesmo que no momento não tenhamos tempo e dinheiro para ir até a maioria delas. Alguns até discursam com toda a propriedade, como torcedores fanáticos de futebol, a respeito das técnicas de tubo, manobras de outros praticantes e atletas ou das condições ideais pra um pico funcionar, às vezes sem nunca ter surfado no lugar!

Segundo um amigo: “…é simplesmente incrível imaginar as ondas quebrando em picos ao redor do mundo e tentar prever como estarão no melhor momento de uma ondulação.”

Quando falamos em investimento no esporte, temos mais uma prova da nossa insanidade. Particularmente nunca vi altos suportes financeiros ao bodyboard, apesar de saber que no fim dos anos 80 e início dos 90 havia recursos disponíveis e o esporte tinha destaque (em horário nobre!) nos maiores veículos de comunicação de massa da época. Hoje e desde sempre, pelo que vivi e pra maioria dos bodyboarders que conheço, os poucos que ganham, ganham pouco pro tanto que fazem pelo esporte ou através dele.

 

Agora, é realmente muito fácil de entender essas e outras tantas maluquices, basta pegar onda de bodyboard e ter o privilégio de viver um dia como este das fotos desta publicação. Bodyboarders de vários lugares diferentes do sul do Brasil botando pra dentro e fazendo a cabeça numa onda fenomenal de Florianópolis em um dia espetacular de um inverno qualquer que nunca mais sairá da cabeça destes malucos apaixonados.

Texto originalmente publicado em Mares e Lugares.

 

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Da esq. para dir.: Fábio Patrão, Rafael Piccoli, Nelson Ferraz, Ronaldo Figueiredo, Lucas Kunsler, Marcelo Mosmann e André Carvalho depois de um dia épico de ondas em Floripa. Foto: Arquivo pessoal.

 

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