Palavra do internauta

O significado do surf

Por Luciano K. Laino em 08/09/08

Praia de Pitangueiras, Guarujá, local onde nosso camarada Luciano curte suas ondas. Foto: Aleko Stergiou.

Como posso explicar para as pessoas o que esse esporte tem de tão apaixonante que faz pessoas se tornarem surfistas e realmente mudarem suas vidas em direção ao litoral para sua prática?

 

O surf é um dos poucos esportes ou talvez o único que faz existir um verdadeiro e autêntico ?life-style?, com roupas, gírias, cabelos e comidas... Por enquanto, tudo normal, mas vamos nos transportar a algumas situações corriqueiras do mundo do surf, para mostrar que a questão não é tão simplista.

 

Tomem-se como exemplo as freqüentes brigas com a namorada para ir surfar no final de semana enquanto ela tem ?aquela festa de família a que não podemos faltar de jeito nenhum?, ou quando toca o despertador às 6h30 e você olha para aquela mesma namorada linda embaixo daquele cobertor quentinho e ela o olha e diz: ?você vai mesmo? Fica comigo, vai...? e mesmo com aquela persistência ímpar, você coloca o ?neoprene? e vai ao encontro delas... As ondas!

 

Essas são algumas situações que para qualquer pessoa normal pode ser uma prova de insanidade, mas para o surfista é algo totalmente rotineiro, mas por que isso? Porque mesmo com 22 anos de surf não penso em parar com esse esporte que já me levou muito dinheiro, encontros, namoradas e me deu várias cicatrizes no corpo... Por quê?

 

Vou tentar explicar como é um dia de surf para tentar me redimir e passar um pouco dessa magia que o envolve.

 

Imagine-se com uma sensação de angústia e ansiedade, talvez parecida com algum tipo de vício, só que esse vício só pode acabar com um mergulho na água salgada. Então, a partir dessa premissa, é bom saber que, antes de uma sessão de surf, ?rola? uma necessidade quase que fisiológica no surfista.

 

Imagine que, após um final de semana de ?altas ondas?, por alguma razão, não foi possível desfrutá-las, surge uma ansiedade que aumenta naturalmente. Recebo uma ligação no domingo à noite de um amigo dizendo: ?cara, amanhã vai estar lestado, o mar abaixou um pouco e vai estar perfeito. Passo na sua casa às 5h30 para irmos para o Guaru?. Concordei no ato, mas confesso que logo veio um leve arrependimento com o horário, mas tudo bem.

 

Fim de domingo em São Paulo, assisto a um DVD com a minha namorada, passo em uma doçaria, deixo-a em casa, volto para a minha, dou uma cochilada até meia-noite e depois vou para a minha cama... De repente... o celular toca, acordo meio tonto de sono quando vejo no relógio... 5h30, meu amigo na porta.

 

Atendo ao celular e falo meio dormindo: ?desencana, cara, não vou?. Aí, meu companheiro de surf, que sabe que estava meio dormindo, só diz: ?cara, to aqui embaixo, larga de frescura que tem altas?. Meio dormindo, vou até o banheiro, faço o que tenho de fazer, pego minha prancha e assessórios, carteira, celular e desço.

 

Entro no carro meio dormindo, falo meia dúzia de palavras meio sem sentido e, quando o dia estava amanhecendo, chegamos ao pedágio. O pedágio é o lugar da Imigrantes que parece ser o primeiro contato com o mar, pois depois de pagar R$ 17, a sensação é que não tem volta.

 

Depois desse choque, já fico mais esperto, a conversa fica mais interessante, a música mais empolgante no embalo das bandas australianas do final dos anos 80, que para os surfistas serão sempre imbatíveis em fazer as pessoas respirarem surf.

 

Descemos a serra. Passamos por Cubatão às 6h15 da manhã. Na passagem pelos trilhos da ferrovia, tive aquele supertição que sempre me persegue quando passo por aquele lugar: levantar os pés e fazer um pedido. Sempre pedi nos meus ?bate e voltas? para encontrar um grande amor. Como esse já foi encontrado, pedi dessa vez ondas de qualidade.

 

Bom... Chegamos ao Guarujá! Passamos pela delegacia, pelo Mc Donald?s, meu amigo entrou em uma rua e parou o carro em um estacionamento. Sabe como é o ?Guaru?, né? Não dá para ?vacilar?. Tiramos as pranchas, colocamos as roupas de borracha e... ?Bora?. Saímos do estacionamento meio fazendo um ?Cooper?, só que de repente a empolgação bateu e começamos a correr brincando e falando besteiras um para o outro.

 

Ao fim da rua ?Benjamim Counstant?, já conseguimos ver a ilha das Pitangueiras ao fundo, mas não vimos a qualidade das ondas. Corremos ao lado do shopping La Plage e pulamos na areia. Esse contato com os pés descalços na areia é totalmente energizador. Quando levantei os olhos e olhei o ?outside?, vi UM METRÃO PERFEITO! Fizemos um alongamento rápido e fomos para a água. O primeiro contato com a água gelada do mês de agosto é meio desanimador, mas serve para retirarmos a sensação de conforto que estávamos e lembrarmos que iremos fazer um esporte radical.

 

Vamos paralelamente remando em direção à arrebentação. Durante a arrebentação, não se fala nada, mas se pensa muito: Será que as ondas estão realmente boas? Será que vou surfar bem? Será que vai estar ?crowld?? E muitos outros serás...

 

Chegando ao ?outside?, sentamos na prancha e esperamos a onda certa... De repente ela veio se formando lá fora. Pensei... É ela! Remei em sua direção, virei a prancha até estarmos sincronizados. Entrei na sua velocidade e quando percebi que a prancha já não precisava mais das minhas remadas, fiz um movimento rápido, fiquei em pé na prancha, desci a onda em direção a sua base, momento em que a sensação parecia a de um ?orgasmo?.

 

Direcionei a prancha para a parede da onda, coloquei a mão em sua parede, e quando a crista começou a me envolver, percebi que estava em um tubo. Fiquei lá dentro por cerca de dois segundos, que mais pareceram duas horas. Saí do tubo, finalizei a onda e soltei um grito de alegria, entusiasmo, ou desabafo.... Em um estado de Nirvana.

 

Durante duas horas e trinta minutos pegamos várias ondas: umas melhores, outras piores que a descrita, mas igualmente empolgantes. Saímos do mar de cabeça feita em direção inversa a que chegamos. A corrida da chegada deu lugar a um andar cadenciado e feliz, cercado de comentários sobre as ondas e sobre como nós surfistas somos privilegiados. E falamos ao mesmo tempo: ?se um dia tudo der certo, viremos morar na praia?.

 

Chegamos ao estacionamento, tomamos uma ducha, colocamos as roupas de São Paulo e nos direcionamos à Babilônia. Já que falamos de Babilônia, nada melhor que um Bob Marley depois de uma sessão de surf para nos levar de volta a realidade. Chegamos a São Paulo antes das 11h da manhã e, coincidentemente, esse dia no trabalho foi o mais produtivo.

 

Entendeu o que é o surf? Não? Então tenho um conselho para você entender melhor: vire surfista! Depois me

agradeça pagando o nosso ?bate e volta?... Aloha!

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