Surfista diz ter sido atacado por tubarão em Bertioga (SP)

Por Fabiana Mello em 05/03/03

Geilson Alves Bezerra teve parte da perna esquerda dilacerada. Foto: Fabiana Mello.

Aumenta a cada dia a repercussão do caso de um possível ataque de tubarão em Guaratuba, praia de Bertioga, litoral norte de São Paulo. O garoto Geílson Alves Bezerra, de 13 anos, teve parte de sua perna esquerda dilacerada quando surfava naquela praia no último dia 10 de fevereiro.

 

Mesmo sem ter visto o que o atacou, Geílson acha que foi atacado por tubarão. "Destroçou minha perna", afirmou.

 

Em entrevista exclusiva ao Waves, Geílson conta que, enquanto ele remava a prancha tremeu e algo bateu violentamente contra sua perna. Com o impacto, a prancha foi arremessada para cima e ele foi arrastado cerca de 2 metros. "Tive uma sensação de gelado e quando tirei a perna da água vi que ela estava em frangalhos. Percebi que algo havia me mordido e depois soltado. Faltava carne na minha perna, fora o que ficou pendurado", disse.

 

Os pescadores Paulo do Rosário e  Maneco com um peixe de 2,38 metros. Foto: Guilherme Madeira do Val.
"Talvez eu tenha sido salvo pela prancha, que deve ter voltado com força sobre o tubarão, depois de ter sido lançada para o alto. Afinal, algo fez com que aquele animal me soltasse. Saí do mar com a ajuda de uma senhora que estava na praia, que me levou imediatamente para o pronto-socorro", disse.

 

De acordo com Geílson, na hora do incidente, a água batia na altura do tórax e ele não pôde ver nada durante o acidente porque, como estava raso, o reboliço debaixo d'água fez com que a areia subisse e deixasse a água turva.

 

Socorrido por médicos do Pronto-Socorro da Unidade Hospitalar Mista (UHM) de Bertioga.

 

A família informou que ele ficou aproximadamente quatro horas no Centro Cirúrgico e levou 74 pontos. A perna sofreu lesões da coxa até perto do joelho, com osso à mostra. O menino recebeu alta no dia seguinte.


Geílson levou 74 pontos na perna. Foto: Fabiana Mello.

Controvérsias - A prefeitura de Bertioga distribuiu comunicado com laudo médico que descarta a possibilidade de Geílson ter sido vítima de uma abocanhada de tubarão.

 

O diretor de Saúde, doutor Amyres Júnior, afirmou ao Waves que o ferimento de Geílson não é típico de uma mordida.

 

"A lesão deste garoto é linear, em forma de V", avaliou. Ele não quis citar o nome do médico que o socorreu no pronto atendimento.

 

O diretor de Operações Ambientais, Edson Reis, acredita que o machucado tenha sido causado pela própria prancha, uma garrafa de vidro ou uma lata.

 

"Certamente não foi um tubarão. Conversei com o médico responsável e acredito que o menino diga isto para chamar a atenção, sem ter idéia da complexidade do assunto. O que deu origem ao ferimento deve ter sido algum objeto cortante", comentou.

 

Tubarão capturado em Guaratuba. Foto: Edson Nogueira.
Coincidentemente, de janeiro até hoje, tubarões têm sido capturados por pescadores locais bem próximos à orla de Guaratuba, a 500, 400, até 200 metros da areia, segundo eles, que não ficaram surpresos com o ocorrido ao jovem surfista.

 

O pescador Paulo do Rosário não estava acostumado a ver estes "cações" enormes. "Não sei o que vem acontecendo, mas a incidência destes animais aqui em Guaratuba aumentou muito de janeiro para cá. Vários pescadores têm pescado tubarões na rede por aqui, a exemplo de "seu Oscar", conhecido como o "o homem do trator", que trouxe um de mais de 2 metros. Comemos a carne deste tubarão por semanas", contou Paulo.

 

Geílson em casa, antes de ser internado em Santos. Foto: Fabiana Mello.

O surfista Fábio Luiz Braz, morador de Guaratuba há sete anos, nunca viu um animal deste porte no mar, mas confessa que, como muitos outros surfistas locais, está assustado e evita cair por essa região.

 

"Sou amigo e parente dos pescadores e vejo a quantidade surpreendente de tubarões que tem aparecido nas redes nos últimos dois meses. Guaratuba não está acostumada com isto. Precisamos avisar a população no caso de estes animais estarem rondando a beira-mar", defendeu.

 

Edson Reis disse ao Waves que não há registros oficiais sobre ataques e que desconhece a aparição de tubarões perto da orla. "Desconheço qualquer ocorrência, caso verídico, de ataque de tubarão na região de Bertioga. Já a pesca de tubarão tem muito, principalmente para a região do litoral norte, sobretudo de Ubatuba, onde é perfeitamente normal achar tubarões e cações".

 

Tubarão encontrado em fevereiro em Guaratuba, Bertioga. Foto: Northon Ferreira.

Atendimento hospitalar - Lúcia Alves Bezerra, mãe de Geílson, está preocupada com o estado de saúde do filho.

 

"Na sexta-feira (21/02) sentimos um cheiro horrível no quarto e, quando o levamos para fazer a troca diária de curativos, vimos que a carne da coxa e os pontos estavam pretos e cheirando muito mal. Os médicos retiraram toda a carne morta (Geílson disse que não sentiu nada apesar de ter desmaiado porque ficou impressionado com o que viu), limparam, fecharam e disseram que futuramente farão um enxerto. "Devem tirar carne dos glúteos para colocar na coxa", lamentou.

 

"Os médicos e a prefeitura estão, em outras palavras, chamando meu filho de mentiroso e eu exijo respeito. Acho que o prefeito não tem culpa de um incidente como este, que pode acontecer a qualquer um, mas, é preciso verificar o que está havendo com estes tubarões para alertar a população. Meu filho está sofrendo e pode até perder a perna, que aliás não entendo o porquê", reclamou dona Lúcia.

 

Na última terça (25/02), Geílson foi internado na Santa Casa de Misericórdia de Santos,
onde, de acordo com Geraldo Bezerra, pai do garoto, ficou confirmado o ataque por um tubarão. "Os novos médicos disseram que meu filho não recebeu o tratamento adequado no hospital anterior e deve sofrer uma cirurgia. Sua perna está muito
infeccionada", conta Bezerra.

 

Um dos médicos que cuida do garoto, doutor Cristiano de Oliveira, não confirma se o ferimento foi ocasiocado por tubarão. Segundo ele, é difícil apontar o que houve de fato. "Geílson chegou aqui com uma ferida feia de 15 dias e somente um especialista em mordidas de tubarões pode dizer isto. Ele passa bem", afirmou Oliveira.

 

Dona Lúcia deixa um apelo: "O fato é que existe a possibilidade de Geílson perder a perna e a comunidade de Guaratuba deve estar atenta a possíveis ataques. É preciso que se estude os motivos das visitas indesejáveis de tubarões e medidas sejam tomadas para que não apareça uma próxima vítima".

 

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