Tsunami em Mentawai

A história de um sobrevivente

Por Iuri Filippini Borba em 27/10/11

Iuri Borba transmite relato de sobrevivente um ano depois do tsunami no pico de Macaronis (foto), Mentawai.

Macaronis, Mentawai, Indonésia. Foto: PT Neptune / Quest1.

Há um ano, exatamente em 25 de outubro de 2010, um tsunami devastou Macaronis, Mentawai. Uma série de ondas gigantes destruiu o resort local, um barco charter de luxo, e fez danos substanciais a uma região precária e isolada da Indonésia.

 

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Um ex-membro da tripulação do MV Midas, navio que explodiu, recorda os acontecimentos com detalhes, e faz questão de deixar claro: “Eu tenho dois aniversários, a data em que nasci e o dia em que sobrevivi ao tsunami na Mentawai”.

 

Nosso contador de histórias prefere ficar anônimo, mas ainda trabalha em um barco na região. Ele ama as ilhas, espera ter seu próprio barco para levar surfistas para conhecer as belezas locais.


Felizmente toda a tripulação e todos os convidados da Midas, Freedom e outros barcos, bem como do resort sobreviveram ao tsunami. Confira abaixo o depoimento completo.

 

Tínhamos ancorado na parte mais calma da baía e já estávamos em nossas camas, quando sentimos o terremoto. Não demos muita atenção por achar que era um pequeno tremor e voltamos a dormir. De repente, o capitão veio gritando para nos alertar que ele tinha visto uma grande onda se aproximando, o que seria a primeira do tsunami.

 

Corremos para alertar os hóspedes e fazer os procedimentos adequados, vestir coletes salva-vidas e levantar a âncora, mas o tempo foi muito curto. Dez minutos depois do terremoto, a onda nos atingiu.

 

Devido ao vento, naquela noite ancoramos paralelo a outro barco na baía, o barco Freedom. Com a água sendo sugada antes de o tsunami chegar, os dois barcos tinham mudado de direção e de repente estava um em frente ao outro, com o Midas mais próximo da costa. Quando o primeiro muro de água nos atingiu, o barco Freedom foi arrastado para nossa direção, arrancando sua ancora e surfando o tsunami direto na traseira do MV Midas.

 

Nessa hora todo mundo ainda estava a bordo dos dois barcos, não tínhamos o que fazer.

 

Quando a colisão ocorreu, o impacto foi na popa (parte traseira) do nosso barco. O capitão nos alertou para ficar a bordo gritando "Não pule!" Infelizmente, alguns membros da tripulação entenderam "Pule" e abandonaram o barco. Eu saltei para ajudar o meu primo que não sabia nadar bem e já estava na água. A colisão deu inicio a um incêndio em nosso barco, que rapidamente cresceu em intensidade.

 

Neste ponto, o capitão nos ordenou a abandonar o navio e nós agarramos as pranchas e outros dispositivos de flutuação. Em seguida, a segunda onda do tsunami veio. Nós tentamos formar grupos e segurar uns aos outros para a segurança, mas o impacto das ondas nos separava. Felizmente, depois que a segunda onda tinha passado vimos que estávamos a poucos metros de distância um dos outros e era possível nadar de volta para o grupo.

 

Uma terceira onda bateu nos arrastando todos para o mangue de Macaronis. Estávamos nadando entre árvores e detritos no escuro. Tudo o que podíamos ver era o fogo do barco. Em retrospectiva, era evidente que um total de quatro ondas atingiu Macaronis, mas nós só tínhamos sentido três.

 

Então, ali estávamos no escuro, no manguezal, sabendo que crocodilos vivem lá. Uma situação um pouco estressante. Nós tentamos colocar os restos de madeira em conjunto para subir em árvores e sair da água, ficar longe do alcance de qualquer criatura com fome. Mas cada vez que tentava subir, a madeira afundava e continuávamos na água.

 

Finalmente nos veio a ideia de colocar as pranchas que tínhamos em cima da madeira para conseguir ficar sobre as pranchas fora da água e conseguimos. Gritávamos tentando encontrar os outros. Estava muito frio e todo tipo de insetos e animais foram subindo sobre nós no escuro no mesmo intuito de fugir da água, foi horrível.

 

Cerca de 45 minutos depois ouvimos outras vozes gritando de longe, então sabíamos que outros tinham sobrevivido. Decidimos que tínhamos que sair do frio e do molhado para sobreviver e nadamos em direção ao resort.

 

Enquanto nadávamos no escuro ouvimos um grande remexer na água e eu tenho quase certeza que era um crocodilo, mas o bicho estava, provavelmente, tão assustado quanto nós, depois do tsunami e, felizmente, não tivemos qualquer encontro mais próximo, continuei nadando sem mencionar os crocodilos para não causar pânico.

 

Chegamos à baía de onde se podia ver o navio em chamas, encontramos outras pessoas de nosso barco. Alguns ficaram com medo de outro tsunami e decidiram ir para dentro da ilha para terras mais altas. Outros, incluindo eu, queriam ir para o resort.

 

De longe vimos as luzes de outro barco longe da baía. Com todo fogo do incêndio sabíamos que esse barco não seria capaz de ver as luzes piscando de nossos coletes salva-vidas, então eu corri para a praia longe do fogo, para sinalizar usando o meu colete salva-vidas.

 

Foi assustador ver o barco partindo em seguida. Felizmente eles nos viram e voltaram com um bote para nos pegar. Depois foram pegar o pessoal que tinha ido pra dentro da ilha e as pessoas cujas vozes ouvimos anteriormente, fomos levados em segurança para o barco deles.

 

Na recontagem vimos que faltavam duas pessoas que estavam em nosso barco.

 

Perguntavam uns aos outros se alguém tinha visto os dois na água, estávamos preocupados, eles podem estar dormindo nas cabines e ter ficado a bordo na explosão. Depois de um tempo, em comunicação com o Freedom, o barco que tinha colidido o Midas, soubemos que felizmente os dois desaparecidos estavam com eles.

 

O barco Midas salvou o Freedom. Com o impacto da colisão o Freedom teve tempo de ligar os motores em reverse (a famosa ré) e passar sobre onda do tsunami. Cada onda empurrava o Freedom para mais perto da costa, mas o capitão agiu rapidamente e conseguiu fazer com que a embarcação se dirigisse a salvo para águas mais profundas.


O pessoal do Barco Quest 1 cedeu as suas fotos do dia seguinte para ilustrar a história. O navio, com ajuda da Rip Curl, foi rápido para o local do tsunami neste dia, ajudando os sobreviventes e fornecendo suprimentos e suporte a todos.


O Quest1 é a coroa das Mentawai, proporcionando a acomodação e instalações mais luxuosas a surfistas e contribuindo para a comunidade local. Se você quer uma viagem de sonho, procure uma viagem para Mentawai a bordo do Quest 1.

 

Para saber mais sobre o trabalho de Iuri Filippini Borba, acesse o site Indosurflife.

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