Esgoto de emissário afeta ecossistema na Barra (RJ)
O emissário submarino da Barra da Tijuca despejará 900 litros por segundo (ou 77 milhões de litros por dia) de esgoto bruto no mar em 60 dias. Foto: Fábio Van. |
Com a sanção da governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus, o emissário submarino da Barra da Tijuca despejará 900 litros por segundo (ou 77 milhões de litros por dia) de esgoto bruto no mar em 60 dias.
A previsão é que a estação de tratamento primária, que apenas separa os dejetos sólidos do esgoto, entre em funcionamento a partir de dezembro, quando atuará em plena capacidade (cinco mil litros por segundo).
Até lá, serão lançados 25 bilhões de litros de esgoto ?in natura? no mar.
Na opinião de alguns, este volume seria diluído no mar, e assim não afetaria a qualidade da água na praia da Barra - ou os ecossistemas presentes na região.
Em Santos o emissário submarino lança esgoto a cinco quilômetros da praia (mesma distância do emissário da Barra) com um volume entre 600 a 1,6 mil litros por segundo.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo, em parceria com cientistas do U.S. Geological Survey, publicaram um estudo sobre o efeito do emissário no sedimento da Baía de Santos para determinar se há poluição proveniente do esgoto.
Descobriu-se que há um acúmulo de sedimentos que afeta a ecologia local e a indústria pesqueira da região. Existe também uma forte correlação entre o lançamento de esgoto com a mortalidade de pequenos crustáceos que compõem a base da cadeia alimentar, e com elevados níveis de toxicidade do sedimento em áreas adjacentes à saída do emissário.
O estudo constatou que o emissário está efetivamente afetando a qualidade da água, a ecologia e a economia local. A recomendação dos cientistas é a instalação de uma estação de tratamento para o esgoto do emissário de Santos o mais rápido possível.
Na Austrália, país onde existem mais emissários submarinos no mundo, todos eles têm no mínimo estação de tratamento secundária (onde um tratamento biológico é adicionado removendo até 90% de bactérias), exceto em Sydney.
O emissário de Sydney foi instalado nos anos 70 somente com tratamento primário, porque de acordo com o governo se gastaria muito para fazer uma estação de tratamento secundário. Passados quase 30 anos ficou comprovado o efeito nocivo na ecologia, que afeta o turismo, a pesca e economia local. Agora, o governo de Sydney gastará US$ 6 bilhões para converter a estação em tratamento secundário.
No Brasil uma praia é considerada balneável com um índice de mil coliformes fecais por 100 ml de água, dez vezes mais do que nos EUA. Os níveis de coliformes fecais em esgoto bruto são de dez milhões, e com tratamento primário apenas um milhão.
Coliformes fecais são organismos que ocorrem normalmente na flora intestinal humana, e assim funcionam como um parâmetro para a quantidade de esgoto presente na água. Porém, a ausência de coliformes fecais não é uma indicação de ausência de organismos que provocam doenças. A hepatite A, por exemplo, pode sobreviver por 100 dias em água salgada.
Além dos efeitos nocivos para a saúde do banhista, há que se preocupar com a saúde do mar também. O mar, ao contrário do que se pensa, não é estação de tratamento de esgoto, nem reservatório de lixo.
O mar não trata o esgoto, até porque há mais do que coliformes fecais no esgoto. Há também detergentes, gordura e metais pesados que poluem o mar e impedem a degradação de material orgânico.
O emissário submarino desloca a poluição para um lugar onde nós não podemos ver o efeito que ela causa. Temos que olhar além do nosso poder míope de avistar a poluição em nossos horizontes, e exigir do governo que nos proporcionem praias limpas e oceanos saudáveis.
No arquipélago das Cagarras, ilhas próximas ao lançamento do esgoto do emissário submarino de Ipanema, é possível notar a baixa diversidade de alguns animais marinhos.
Segundo pesquisadores do Museu Nacional/UFRJ, a baixa qualidade da água é uma possível causa para essa redução na biodiversidade local. Pesquisas com esse foco serão iniciadas na região.