Na rota dos federales

Por Fernando Mesquita em 07/04/04 13:32 GMT-03:00

Visual mexicano no meio do nada. Foto: Fernando Mesquita.
Fernando Mesquita, o Grilão, um dos fundadores da Revista Fluir, publicitário premiado com o Leão de Ouro na França, com a campanha Guerra das Colas, ficou largado no México no final do ano passado, quando pegou algumas das boas ondas de sua vida.

 

Neste relato, ele conta um pouco da barca, das roubadas e das ondas perfeitas ao lado de um punhado de amigos do Brasil.

 

Em Lasaro Gardena eu teria que ligar pro Gilberto, dono das cabanas em Nexpa, só que o motorista da busangavéia, uma jardineira caindo aos pedaços, que os mexicanos chamam de autobus, me disse:

 

- Você vai para Rio Nexpa? Eu passo por lá!

 

Respondi:

 

- A é? És Bueno! Então, vamos, as tralhas todas já estão aqui mesmo.

 

A semelhança de Rio Nexpa com Chicama, no Peru, não é mera coincidência. Foto: Fernando Mesquita.
Eu ocupava toda a parte de trás da buzanga, fora o case Pro-Lite com três pranchas: 7.1, shape do Almir Salazar; 8.4 gunzerassa que entoquei forte em Puerto Escondido, com shape do Zecão; e long 9.1 Storm Rider, shape do Juquinha.

 

Tudo no meio do corredor com a moçada cheia de sacola, galinha, pato, filho e sei lá mais o quê. Só sei que a galera  tinha que pular! Sem falar naquele entra-e-sai sem parar.

 

Essa estrada lembra muito a serrinha da BR 101, entre Maresias e Boiçucanga, litoral paulista, só que com altas e altas ondas! Puta visual!!!

 

De repente, no meio do nada, o motorista pára, vira pra mim e grita:

 

- Proento, chegaste!

 

Dei aquela olhada de 360º e? E??? Não tinha porra nenhuma em volta e me vi no meio de um nada mexicano, sob um calor de mais de 40º C.

 

Visual desértico e um oásis em meio aos cactus. Foto: Fernando Mesquita.
Fiquei sentado ali um tempinho, até cair a ficha de que eu estava perdido. E agora? Aí, vi distorcida pelo calor do asfalto, alguém sentado numa varanda ao lado de uns cactus, lá longe.

 

Coloquei minhas coisas na sombra e saí andando, como se fosse um personagem de uma cena de bang-bang mexicano, num filme de 3ª categoria. Era um baita sombrero sentado numa cadeira de balanço.

 

-  Buenas tardes, falei. 

 

Vagarosamente, o sombrero foi levantando e só vi um bigodon daqueles mexendo!!!

 

-  Hombre, o que queres?

 

Perguntei se ele sabia onde ficava um surfcamp no Rio Nexpa. Só ouvi um grunhido.

 

- Nonnnnmmmm

 

Barca brasileña rumo às ondas mexicanas. Foto: Fernando Mesquita.
Eu não sabia o que era ou como era esse lugar, só sabia que tinha altas ondas, e pra que mais, né?

 

Ele começou a falar e eu não entendia porra nenhuma, mais parecia um dialeto maia, HTML ou Java Script avançado, sei lá que língua era aquela!

 

Só no finzinho entendi que eu tinha que pegar uma estradinha bem em frente das minhas tralhas.

 

Rapidinho eu disse:

 

-  Muchas gracias, señor!!!

 

E que calor!!! Atravessei a estrada correndo, uma estradinha linda de pedra escondida no meio das árvores.

 

Fiquei ali numa sombrinha esperando alguma viva alma passar. Não demorou muito e passou um caminhonete que eu parei ? eram uns americanos. Perguntei se eles tinham um celular. Que nada, não tinha, tuuuuudubem!!! Muchas gracias!

 

As cabanas de Rio Nexpa são um convite à felicidade. Foto: Fernando Mesquita.
De repente, é verdade, eu juro, pára um Chrysler Stratus prateado e abre o vidro bem devagar. Tudo naquele momento estava em câmera lenta, acho que por causa do calor.

 

Levantei, olhei pra dentro e? E? Heinnnn?

 

I don't believe, eram três brasileiros... e amigos: Micro da Spy, Saulo e Berardi.

 

Eu sabia que eles estavam por lá, mas encontrá-los daquela maneira foi demais.

 

Obrigado, meu Deus!!!

 

Amarramos as pranchas na capota e joguei as malas pra dentro. Um ar-condicionado

me levou de volta aos anos 70, na Guarda do Embaú ou sertãozinho de Camburi

em pleno México.

 

Quando cheguei ao lugar, mais parecia um sonho. Imagine umas cabanas com teto de palha, uma ponta cheia de coqueiros e quatro linhas de esquerdas à la Chicama, bem maiores e mais que perfeitas, uhhuuuuu!

 

Quando tudo é perfeito o sonho facilmente se funde com a realidade. Foto: Fernando Mesquita.
Não, não acredito, estou sonhando ou é miragem? Estou delirando!

 

Procurei o Gilberto e nada, só achei a mamacita dele para explicar que eu queria uma cabana, que já estava paga, eu já tinha acertado a minha estadia.

 

Ela só falava que custava 200 pesos por dia e eu tentava explicar que não precisava pagar nada, já estava tudo pago.

 

A baixinha mexicana começou a ficar nervosa,  falava rápido o mesmo HTML que o bigodon do sombrero, e eu não entendia porra nenhuma!

 

Era ela e um lóki mudo, que só gemia e ainda tinha uma perna de plástico com um pé de madeira, que figura! Eles só acalmaram na hora em que eu coloquei uma nota de 100 doletas na mão dela.

 

Aí, ela abriu o maior sorriso e viramos superamigos, santo remédio! ?Si, cabana nueve es muy buena?, disse a tia.

 

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